Como lidar com a tristeza de fim de ano?

Fim de ano, para muitos, é motivo de alívio, férias, comemorações e felicidade, mas esta sensação não é universal. O Centro de Valorização da Vida (CVV) revelou que o número de ligações recebidas para apoio emocional costuma aumentar de 15% a 20% no mês de dezembro. Mas por que nosso estado emocional pode ficar abalado neste período? O que fazer quando isso acontece?


Vamos relembrar quais são as comemorações básicas de fim de ano: confraternizações do trabalho ou grupo de amigos, Natal e Réveillon. É um momento de fechar ciclos, encerrar o ano e comemorar o que foi vivido com os grupos de pessoas com quem você compartilhou os perrengues e as conquistas do ano todo. Essas comemorações são para todas as idades: crianças e adolescentes fecham mais um ano escolar e colocam os pés nas férias; e os adultos encontram espaço para fazer uma bagunça gostosa com pessoas que amam. Mas... nem todo mundo sente essa realidade dessa forma.


Vamos entender quais os motivos que levam muitas pessoas a viver esse período de uma forma sofrida e compreender que mesmo sentindo toda essa tristeza você pode viver este momento, do seu jeito, com sua realidade interna.


Por que podemos nos abalar emocionalmente no fim do ano?


Aceleração: uma mudança de 360 graus.


Geralmente o fim do ano é precedido de um período de aceleração que chamamos de correria: últimas provas e trabalhos na escola, prazos e planejamentos para o próximo ano no trabalho, corrida para organizar férias e festas de fim de ano e, principalmente, um cansaço de ter vivido um ano inteiro. Em qualquer lugar, qualquer idade, sempre escuto as pessoas falarem do quanto estão cansadas. Muitas vezes esse cansaço pode ser ainda mais intenso como a exaustão, que é a última fase de intensidade do estresse. Quando estamos nesse nível de estresse, mudar de clima pode ser um desafio: de um estado de exaustão para um estado de relaxamento, é uma mudança de 360 graus. Natural que essa mudança radical nos impacte. As pessoas percebem muito mais suas sensações e sentimentos que estavam camuflados nos afazeres.


Comemorar: uma avalanche de vivências não processadas.


Comemorar significa trazer à memória algo vivido e celebrar algo importante. Bom, mas nem sempre o balanço anual é sentido como algo a ser comemorado. Muitas vezes podem envolver perdas, despedidas, objetivos que não alcançamos. Quando significamos dessa forma o ano que vivemos, percebemos que não digerimos os acontecimentos ao longo do ano conforme os experimentamos. Assim, no fim do ano pode vir uma avalanche de sentimentos em aberto, pois paramos para nos dar conta do que passou e das dores que causaram.


Saudades: um sentimento de falta da presença.



Para quem já se despediu de alguém que ama sabe que o fim do ano é um dos momentos em que o sentimento de falta vem com mais força. É um período em que nos damos conta da saudade, em que o abraço apertado faz mais falta do que nunca e a ausência da pessoa se torna forte e presente mais uma vez. Na correria da vida, esses sentimentos podem passar despercebidos, mas na hora de relaxar e comemorar, a saudade vem a galope. Além disso, a recordação de momentos felizes e fases que não voltam mais podem ser dolorosas e por isso lutos em aberto podem nos impedir de estarmos presentes e aproveitar a realidade que temos hoje.


A idealização de um fim de ano perfeito.


Falando em aproveitar o que temos hoje, o que dizer do ideal de um encerramento na escola, faculdade ou trabalho cheio de sucesso, um Natal em família feliz e uma virada de ano completamente satisfatória e mágica? Muitas vezes nem percebemos o quanto esses ideais podem nos trazer sentimentos de tristeza e frustração nos impedindo de sentir e agradecer o que temos e o que alcançamos, do nosso tamanho e do nosso jeito. Além do ideal construído ao longo da vida, também existem as comparações estimuladas por meio das redes sociais: o quanto a família e as outras pessoas podem parecer mais realizadas do que nós.


Quando construímos nossos piores inimigos.


Além das idealizações sociais e das comparações com os outros, ainda encaramos as cobranças das relações próximas e, principalmente, as nossas cobranças internas. Essas, muitas vezes, são as mais cruéis e não existe outro momento no ano tão propício para elas aparecerem com mais intensidade nos mostrando o que não conseguimos, o que queríamos que fosse e o que não foi. Fica difícil aproveitar qualquer momento quando somos cruéis conosco.


A incerteza.



Um fechamento de um ciclo tem o olhar para o passado e outro para o futuro e quando não somos nossos parceiros e não estamos em uma relação saudável conosco, o medo do que está por vir pode dominar esse momento. Questões financeiras podem aparecer, medo de não dar conta do ano seguinte e assim lá se vão por água abaixo os momentos de comemoração.


Pois é, nossa tristeza de fim de ano pode brotar de tantos lugares... mas calma! Agora que você já tem ideia de onde ela vem, vamos pensar juntos sobre o que podemos fazer com tudo isso!


Antes de tudo questione-se se esses sentimentos estão presentes há muito tempo, é importante diferenciar tristeza de depressão. Clique aqui para você entender melhor a depressão.


O que podemos fazer?


Para começo de conversa, abrace sua tristeza, ela está aí por algum motivo e pode dizer muito sobre você e para você. Para pensarmos no que fazer, precisamos partir de onde estamos, jamais ignorando o que sentimos. A ideia não é que você se sinta feliz como as pessoas, mas, sim, que você possa lidar com o que está vivendo da melhor forma possível, considerando suas condições pessoais no momento. Agora sim, vamos lá?


O seu tempo.


Muitas pessoas se animam com a correria do fim de ano, as “muvucas” das festas e toda a aceleração para ir de um lugar para o outro. Mas qual seu ritmo? Você precisa desacelerar? Um fim de ano mais calmo e começando a caminhar ao invés de correr lhe faz melhor? Pergunte-se e descubra qual seu ritmo e como você pode encaixar seu jeito de lidar com o tempo nesse período.


O que tem?



Nem sempre encontramos motivos óbvios para comemorar, mas sempre tem algo. Sua vida, a vida de alguém que ama, uma comida gostosa ou o simples fato de poder ler este texto e pensarmos juntos sobre este momento. Muitas vezes expressar sentimentos de afeto pode ajudar a tirar o foco do que falta: uma carta a si mesmo, para quem ama, para quem se foi.


Despedidas e processos.


Falando em quem se foi, deixe a lembrança vir, reserve um momento para seu choro e, de preferência, receba e aceite um colo. Processar as despedidas que foram vividas ao longo do ano e poder chorar por elas pode te ajudar a dar espaço para todos os sentimentos que existem e inclusive a poder se permitir sentir os sentimentos agradáveis que podem brotar do que existe aí com você na sua vida agora. (Leia mais sobre despedidas no texto: "Quando chega a hora de dizer adeus".)


Quem está aí?


Quem está presente com você? Talvez não seja quem você gostaria, talvez não seja alguém que você ainda ama, pode ser apenas um vizinho ou alguém que deseja um feliz natal onde você passa. Aproveite cada companhia e principalmente a sua. Indico o texto "Solidão de casa cheia" e também o filme Sob o sol de toscana que sempre me lembra de aproveitarmos cada pessoa que cruza nosso caminho


Tchau, idealizações. Oi, Realidade!


Para aproveitar o que temos e quem está por perto vamos precisar perceber os ideais que nos fazem tristes e nos despedir deles. Ao fazer isso percebemos que somos feitos de sensações, e sensações agradáveis são mais fáceis de explorar do que imaginamos: um cheiro gostoso, uma música que traz paz, um sorriso de alguém... permita-se sentir o que existe. (Leia mais sobre sentir no texto “A vida existe para fazer sentido”.)


Livre-se da culpa.


Esse sentimento quando fica remoendo as vivências passadas não ajuda em nada. Você fez o melhor que pôde com as condições que tinha e com o que estava sentindo nesse ano. Seja sincero consigo e, se não gostou de alguma atitude sua, anote para lembrar-se de fazer diferente no ano que vem. Deixe o que está à sua frente te despertar para aproveitar as aprendizagens que você trouxe na bagagem até aqui. Ao se aproximar do que sente e reconhecer as representações e significados das experiências que você viveu, você tem sempre a chance de viver de forma mais integral consigo mesmo. (Leia mais sobre a relação consigo mesmo em "A difícil jornada de ser flor".)


Crie o seu ritual.


Rituais fazem parte da vida do ser humano, mas que tal criar um que combine com você e com a sua necessidade? Faça do seu jeito, algo que simbolize cada ponto desses que conversamos e que inclua seus desejos para as incertezas que estão por vir!