Mecanismos de defesa psicológicos e os impactos da pandemia

Você tem se sentido excessivamente irritado e explosivo nos últimos tempos? Ou então entristecido, sem energia e sensível? Pois é, não há como negar que nosso estado emocional está sendo diariamente impactado pelos efeitos da pandemia. Mas como é que esse impacto funciona mesmo? Por que ora você se sente irritado, ora entristecido e em outros momentos uma sensação de esperança por um mundo melhor para vivermos? É a isto que vamos responder neste texto! Nos acompanhe nesse raio x dos processos emocionais durante a pandemia e amplie sua compreensão sobre como lidar com isso.


Assim como nosso conhecimento sobre o vírus evolui dia a dia com novas descobertas que nos ajudam a entender como ele funciona e como enfrentá-lo, a compreensão dos efeitos deste processo na nossa vida emocional também vai apresentando novas nuances. Se observarmos com atenção, sabemos descrever alguns detalhes sobre o vírus, sua reprodução, nossa resposta imunológica a ele... Agora, sobre nossos processos emocionais, o que sabemos é que com certeza estamos abalados, mas os caminhos que nossas emoções percorrem podem ser elucidados com mais detalhes. Então, vamos entender mais sobre:

  • 4 impactos emocionais importantes da pandemia:

  • - A iminência do contágio;

  • - O luto;

  • - Os conflitos relacionais;

  • - O impacto da superação.

  • Como funcionam nossos mecanismos de defesa psicológicos e como lidar com eles nessas circunstâncias?


4 impactos emocionais importantes da pandemia


O primeiro impacto importante é a iminência do contágio que chegou com a descoberta do vírus e nos acompanha desde então. Todos os dias passamos pela possibilidade de nos contaminarmos e esta possibilidade faz de nossos dias sucessivas situações de risco. Percebem o clima que vamos experimentando ao nos darmos conta disso? Nossas percepções da realidade vão despertando a sensação de ameaça que pode estar mais intensa ou menos intensa de acordo com o grau de exposição que percebemos.


Desta sensação de ameaça à vida, desencadeiam-se reações neuropsicológicas de estresse que preparam nosso organismo para enfrentar o que nos põe em risco. Mas além da ameaça biológica, e em decorrência dela, também estamos expostos a diversas ameaças psicológicas, relacionais, sociais e econômicas. Nossos medos passam a envolver outros processos psicológicos como a necessidade de subsistência e de proteger a quem amamos.


Os estados de tensão são muitos e, para lidar com cada um deles, as pessoas vão tentando encontrar atitudes congruentes com suas percepções e, à medida que as situações vão variando, as atitudes podem mudar também. A cada ciclo de percepção de risco e busca de uma atitude de autopreservação, uma nova descarga de estresse com hormônios e neurotransmissores que alteram nossas emoções e nossas reações. É por conta desse processo que ora nos sentimos tristes, ora irritados, às vezes sem energia e em outros momentos cheios de esperança.


Agora imaginem todo esse processo quando estamos em relação com alguém. A complexidade da relação pode até fugir do nosso alcance de compreensão quando estamos envoltos em circunstâncias estressantes como esta. São mudanças concretas e subjetivas no nosso jeito de viver como, por exemplo, as mudanças de trabalho, a dinâmica familiar, as horas de convívio, as dificuldades financeiras que impactam cada um de uma forma diferente de acordo com suas percepções e compreensões. E aqui está mais um impacto importante: os conflitos relacionais que podem ser desencadeados nesta complexidade.


Vocês já devem ter percebido que quanto maior a exposição ao estresse, mais rígido torna-se nosso jeito de ser, não é? Pois é, quando estamos sob sensação de ameaça ou de risco iminente, nossa percepção fica focada em tentar manter a ameaça distante ou combatê-la. É um processo neuropsicológico acionado involuntariamente e que tende a nos preservar. Mas a questão é quando as pessoas das nossas relações passam por processos semelhantes, mas com sensações de ameaça diferentes ou até divergentes. Nessas circunstâncias estes mecanismos de funcionamento tornam-se fonte de desentendimentos e conflitos, que chegam a provocar afastamento afetivo.


E o terceiro impacto importante é quando as perdas se concretizam de fato, quando o contágio acontece e a saúde não evolui bem levando à morte. Os impactos do luto durante a pandemia se alastram na mesma velocidade que a pandemia, impactando milhares de pessoas diariamente. Já conhecemos os processos pelos quais uma pessoa passa quando está elaborando uma perda, no entanto durante a pandemia nossos recursos de elaboração estão precisando se adaptar aos espaços e rituais possíveis para as circunstâncias.




E, além dos lutos por morte, há ainda inúmeros outros, seja pelas relações que não suportam as mudanças, pelas perdas financeiras e de condições básicas de vida a que milhares de pessoas diariamente passam a experimentar, pelas perdas das relações sociais para crianças e adolescentes que estão tendo seu desenvolvimento impactado, dentre tantas outras com significados pessoais.


E o quarto impacto importante vai em uma outra direção: o impacto da superação. É isto mesmo. A superação também impacta. Cada vez que alguém se recupera da covid-19, toda vez que um conflito emocional encontra um consenso ou quando uma dificuldade pessoal é superada, somos invadidos por uma sensação de realização intensa e impactante. A sensação é de que estamos vivendo na máxima potência quando o assunto é intensidade. E a percepção deste impacto talvez seja uma importante conscientização para ampliar nossa flexibilidade e transformar nossos objetivos e processos de desenvolvimento pessoal.


Agora que passamos por estes 4 impactos, já podemos nos aprofundar nos nossos mecanismos de defesa que perpassam todos eles, afinal, a forma como nos sentimos ameaçados e tentamos nos defender diz muito sobre nossa saúde mental durante a pandemia. Mas como nossos mecanismos de defesa psicológicos estão sendo ativados? O que exatamente estamos defendendo? E como lidar com isto? É o que você vai encontrar no próximo tópico.


Como funcionam nossos mecanismos de defesa psicológicos e como lidar com eles nestas circunstâncias?


Os mecanismos de defesa são processos psicológicos do campo das percepções que acionamos quando nossas experiências nos levam a nos sentir ameaçados de alguma maneira. Segundo o psicólogo norteamericano Carl Rogers, precursor da Abordagem Centrada na Pessoa, os mecanismos de defesa de negação ou distorção perceptiva são acionados quando nossa noção de nós mesmos parece estar sendo posta a prova.


Nos deixem trazer esse conceito exemplificado nas circunstâncias de pandemia: Imaginem uma pessoa que costuma prestar cuidados aos seus familiares. Esta pessoa tem uma noção de si com características cuidadoras, que se disponibiliza com frequência para prestar assistência aos pais, desde fazer as compras até acompanhá-los ao médico, por exemplo. No entanto, durante a pandemia, isso seria diretamente dificultado, pelas recomendações de distanciamento social. Se esta pessoa não está conseguindo ter atitudes cuidadoras, então sua noção de si fica arranhada. Isto quer dizer que se ela viver uma situação como, por exemplo: se os pais adoecerem e ela não puder prestar cuidados, seus mecanismos de defesa podem ser acionados gerando intenso sofrimento e angústia.


Esses mecanismos de defesa podem ser distorções perceptivas, ou negações de elementos da experiência. Neste exemplo em especial, se a pessoa perceber que não está sendo uma boa cuidadora como pensava ser, então pode deixar de perceber alguns elementos de risco das situações, por exemplo. Se não houvesse riscos, ela não estaria sendo descuidada, logo sua noção de si estaria intacta.


Curioso, não é? Mas este processo pode acontecer. Podemos perceber aspectos da experiência de forma distorcida, assim como podemos não perceber elementos importantes, impactando na nossa forma de viver as experiências e nossas relações. Este foi apenas um dos exemplos possíveis, mas o que estamos percebendo de forma geral é que os mecanismos das pessoas estão sendo acionados com maior frequência durante a pandemia diante dos impactos de risco iminente de contágio, processos de luto, conflitos relacionais, entre outros.


Se observarmos com atenção, perceberemos que todos estamos à flor da pele, como se as características das pessoas estivessem destacadas. Pois é, os nossos mecanismos de defesa ativados com frequência podem ser os processos que explicam estas reações de proporção coletiva.


Então para lidar com este processo, nossa autopercepção é nossa maior aliada. Busque perceber a si mesmo com atenção, observe como você se percebe e conte com a percepção das pessoas ao seu redor, elas podem trazer elementos importantes sobre você.


Um outro elemento importante para lidar com este período de estresse constante é a comunicação. Busque comunicar-se com flexibilidade para ouvir e para reformular suas compreensões junto à outra pessoa. E não esqueça, estamos passando por esse processo junto com toda a humanidade. Definitivamente, este é um processo coletivo, então mantenha-se consciente de que estamos todos sob estado de tensão. Esta consciência pode ajudar a flexibilizar suas percepções e atitudes.

E se sentir que precisa de ajuda para reconfigurar suas percepções e compreender seus mecanismos de defesa, você pode contar com uma consulta psicológica. Clique aqui e converse com uma das nossas psicólogas por WhatsApp.



Maira Flôr

Psicóloga

CRP 12/08932

(48) 99642-9889 

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