Fase da adolescência: tudo o que você precisa saber

A adolescência é geralmente aquela fase que os pais mais temem viver com seus filhos. Fica sempre uma sensação: “ih... está chegando a adolescência, essa fase dá trabalho”. As maiores preocupações são depositadas neste período e as relações ficam mais complicadas. Mas por que temos tanta dificuldade de lidar com esta fase, seja como pais, seja quando a vivemos?

Esses dias li um conto da Clarice Lispector que se chama “Gertrudes pede um conselho”*. Gertrudes é uma adolescente (Tuda, de 17 anos) que busca a sua verdade procurando uma “doutora”. Ela não encontra essa relação facilitadora, somente uma experiência nova que, com a perspicácia da adolescência, usa para fortalecer a si mesma.


Ao final da leitura, fiz a seguinte reflexão: todo adolescente quer alguém que o escute profundamente para poder entender melhor a si mesmo. Mas isso todos querem, não é mesmo? Sim! É que na adolescência você está mais confuso, inseguro e sente isso tudo mais intensamente do que em todas as outras fases da sua vida. Para entender esse momento intenso das nossas vidas, vamos passear pelos seguintes pontos:


  • O que é a adolescência?

  • O que um adolescente precisa viver?

  • As relações na adolescência.

Então, vamos lá “escutar” este momento do desenvolvimento humano!

O que é a adolescência?


Vamos começar pela idade. Afinal, com quantos anos somos considerados adolescentes?


Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a adolescência começa aos 10 anos e termina aos 19 anos completos. Além disso, ela é dividida em pré-adolescência – dos 10 aos 14 anos, adolescência – dos 15 aos 19 anos completos e juventude – dos 19 aos 24 anos. Existem também teorias atuais que consideram a adolescência estendida até os 30 anos de idade, isso porque tem-se considerado que a maturidade do cérebro ocorre em três décadas. Considera-se, então, que a fase final da adolescência tem um término incerto.


Ainda existe a definição jurídica. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei 8.069, de 1990, define a adolescência como a faixa etária de 12 a 18 anos de idade (artigo 2o), e, em casos excepcionais, o estatuto é aplicável até os 21 anos de idade (artigos 121 e 142).


O que quer dizer “maturidade cerebral”?


Viver a adolescência é começar a ter certeza e descobrir que a existência é uma grande dúvida. É perceber a maravilhosidade de tudo e a tristeza profunda de ser.


Nossa, quantos extremos num mesmo trecho! Quanta intensidade e contrariedade! É isso mesmo, a adolescência é a fase mais intensa e com os sentimentos mais contraditórios da nossa vida.


Sabemos que o “bum” de transformações no corpo é notável por causa de todo o processo hormonal, isso estudamos na escola, não é? Mas nem sempre nos damos conta da dimensão das mudanças no nosso cérebro: muda nosso jeito de pensar, sentir e agir. Começamos a ser capazes de pensar de forma abstrata, dedutiva e hipotética, desenvolvemos nossa habilidade de nos colocarmos no lugar do outro com mais eficiência, compreendendo pontos de vista distintos dos nossos.


Com essas transformações, a curiosidade é despertada e as habilidades sociais começam a ser mais evidentes, assim como as manifestações contestatórias. De crianças dependentes dos pais passamos a ter uma autonomia de pensamento que não estamos prontos para gerenciar. Podemos ser muito maduros para desenvolvermos nossa criatividade e começarmos a processar nossas opiniões e, por outro lado, completamente imaturos para tomar decisões definitivas e cuidar de nós mesmos.


As alterações de humor: do 8 ao 80


Como dizia Tuda, no conto de Clarice Lispector:







“Ora sentia uma inquietação sem nome, ora uma calma exagerada e repentina. (...) Uns dias cheia de tédio, enervada e triste. Outros, lânguida como uma gata, embriagando-se com os menores acontecimentos. Uma folha caindo, um grito de criança, e pensava: mais um momento e não suportarei tanta felicidade.”











Não é à toa que surgiu a expressão “aborrecentes”. A labilidade emocional junto com o cérebro em expansão contestando tudo que aprende pode vir acompanhada de agressividade. Insegurança e ansiedade, frente a tantas transformações, são apenas alguns sentimentos que embalam essa fase. A inconstância traz as deliciosas crises de riso em grupo e as profundas tristezas e isolamento no quarto, gerando confusões e certas defesas para algumas pessoas não chegarem perto.


Essas instabilidades emocionais em conjunto com a impulsividade, característica de um córtex pré-frontal imaturo, trazem uma dificuldade do controle inibitório, de planejamento e tomada de decisão. A percepção alterada do tempo traz a hipervalorização do tempo presente, aparecendo a intolerância à espera, deixam atividades para última hora, geralmente se atrasam e têm dificuldade de compreender as reflexões dos pais sobre os prejuízos para o futuro.


Qual a tarefa central do desenvolvimento na adolescência?


Somado a tudo isso, temos a tarefa psicológica central dessa fase: a busca pela nossa formação de identidade nos deixando perto da experimentação do mundo e de nós mesmos para nos afirmarmos e demonstrarmos nosso poder e quem somos. E assim aparecem as maiores preocupações desta fase: atitudes que os colocam em situação de risco.


As transformações acontecem rapidamente exigindo uma agilidade de adaptação intensa! Seja consigo mesmos, seja como os outros os tratam, seja com o que entendem do mundo. Tudo fica diferente! Imaginem: em casa passam a ter tarefas e responsabilidades, na escola precisam escolher a carreira, nos relacionamentos encontrar alguém para ter uma relação séria…


Ufa! Quanta informação, não é mesmo? Agora estamos mais perto de como é estar na adolescência, acredito até que vocês revisitaram os seus processos, não foi?


Vocês já viram (ou são) aqueles adultos que parecem adolescentes? Sim, essa fase não vivida traz consequências e, possivelmente, resquícios de um desenvolvimento que vamos precisar ter ao longo da vida adulta. Por isso é tão importante vivermos todas as nossas fases do desenvolvimento com tudo que precisamos. Então vamos descobrir o que um adolescente precisa viver?

O que um adolescente precisa viver?








“Tudo era confuso e só se exprimia bem na palavra “liberdade” e nos passos fechados e firmes, no rosto fechado que adotava.” (Clarice Lispector)













Já percebemos que ser adolescente é descobrir o mundo, arriscar e construir assim a imagem de si mesmo. Para isso vamos precisar de alguns processos importantes.


- Processo de luto: na adolescência nos despedimos de muitas coisas importantes e gostosas da nossa vida: a infância! O nosso jeito infantil, nosso corpo de antes, a relação com os pais, as brincadeiras. O novo chega sem pedir licença e precisamos dizer adeus ao que já não existe mais.


- Entender o mundo por si mesmo: com o cérebro em expansão, o mundo se abre de uma forma nunca vista antes e precisamos experimentar a vida, para nos localizarmos nela e descobrirmos o que de fato gostamos de viver.


- Sentir e compreender o que sente: os sentimentos são muitos e como reagimos a cada situação é algo profundamente pessoal, por isso é tão importante compreender o que se sente. Esse é o princípio, o desenho dos contornos da nossa identidade.


E assim começamos a descobrir quem somos e qual a nossa identidade.

As relações na adolescência


“Um olhar simples, distraído, completamente alheio ao nobre fogo que ardia dentro dela. Quem poderia persistir, pensava acabrunhada, junto de tanta vulgaridade?”(Clarice Lispector)


É essa a sensação de quem passa essa fase, “quem pode ficar ao meu lado e entender tudo que se passa dentro de mim?”


Assim se formam os grupos, tribos, clãs, gangues… e todas as denominações dadas ao longo dos tempos aos adolescentes que se aglutinam por afinidades e buscam construir sua identidade em conjunto com pessoas com as quais sintam-se compreendidos, aceitos, protegidos e fortalecidos nas suas características.


Viver tudo isso sozinho seria angustiante, por isso, nesse processo é fundamental ter bases orientadoras e pessoas de referência. Relações de confiança com pessoas que já passaram por essa fase como pais, familiares ou autoridades, podem ser fonte de orientação. Algumas vezes até os ídolos podem desempenhar esse papel na vida dos adolescentes sem nem saberem.


Quando chegamos na adolescência os pais da infância não existem mais, eram os heróis e passaram a ser pessoas com defeitos, reais. É preciso então construir uma nova relação entre pais e filhos. Você deve estar se perguntando: mas como? Como estar ao lado de uma pessoa tão intensa, instável e cheia de confusões e afirmações?


Acredito que esses pontos podem ajudar a refletir sobre essa forma de relação:


- Transparência na comunicação: muitas vezes exigimos do adolescente mais do que ele compreende ou consegue fazer. É bem verdade que eles se portam como se conseguissem, afinal, estão treinando a afirmação de si mesmos. Mas nós precisamos lembrar que eles estão em processo de formação e nossa comunicação precisa ser clara sobre o que esperamos ou queremos deles. Muitos problemas acontecem por não entendermos o que o outro está querendo dizer.


- Paciência: a pessoa nessa fase perde a paciência com ela mesma, imagina quem está do lado dela! Ela não é mais criança, mas também não é adulta, por isso precisamos ter paciência para compreender o que ela pode estar entendendo e sentindo.


- Julgamentos: julgou, perdeu! Julgamentos morais não têm vez na relação com adolescentes. Eles estão em expansão, questionando tudo e experimentando a vida. Então não conversarão de forma aberta com alguém que julga sua forma de ser em construção.


- Sem defesas: eles podem ser intensos, também, no que dizem sobre você, mas você não precisa se defender de um adolescente, você já passou por essa fase e sabe que podem existir juntos. Para isso esteja seguro da sua existência para que outra pessoa não a abale.


- Vontade de construir juntos: esteja certo de que um adolescente vai lhe mostrar um lado que você não sabia ou que ainda não pensou. Eles podem ser imensamente inovadores nas coisas que você vem fazendo de um jeito ultrapassado. Ao mesmo tempo, você, enquanto adulto, já viveu muito e tem experiência para dar e vender. Agora imaginem o que podem construir juntos!


- Liberdade para deixar a pessoa ser o que descobrir: sem expectativas! Essa pode ser a parte mais difícil para os pais. Não sabemos que identidade vamos construir ao longo da adolescência, nem quem a vive, nem os pais e essa resposta não deveria vir com base nas expectativas. A curiosidade por tudo que seu filho está descobrindo é sua maior aliada.


“As pessoas são tão maravilhosas quanto o pôr do sol, se as deixar ser. Quando olho para um pôr do sol, não dou comigo a dizer 'suavize o laranja um pouco no canto direito'. Não tento controlar um pôr do sol. Eu assisto com admiração enquanto se revela.” (Carl Rogers)


A adolescência, como todas as outras fases do desenvolvimento humano, tem tudo para ser um momento incrível das nossas vidas! Agora sabemos ainda mais que, vivê-la, pode não ser fácil. Saiba que você não precisa estar sozinho!


Estamos por aqui para ajudar você nesse processo do desenvolvimento, se você for o adolescente a Psicoterapia pode te ajudar, caso for o cuidador dele o Atendimento aos pais é o indicado para a ajuda psicológica.


Clique aqui e converse com uma de nossas psicólogas para conhecer mais e entender o que faz sentido para você.


*LISPECTOR, Clarice. Gertrudes pede um conselho. Todos os contos. Editora Rocco, 2016.

Doralina Marcon

Psicóloga

Destaques
Recentes
Arquivados
Procure por Tags
Nos Acompanhe
  • Facebook Basic Square
  • YouTube Social  Icon
  • Instagram Social Icon

© Espaço Viver 2014. Todos os direitos reservados.

Localização

Endereço

Rua Fritz Müller, nº 50, Salas 601 e 602 Coqueiros - Florianópolis/SC

Telefones

(48) 3039 0907 | (48) 99642 9889

E-mail

contato@espacoviverpsicologia.com

Facebook