Como lidar com a morte de alguém que amo?

É difícil acreditar quando um familiar morre. Nós não entendemos essa informação na primeira vez que a ouvimos. É possível que o coração acelere e que de repente nada mais faça sentido. É como se o mundo congelasse ao nosso redor por alguns instantes e tentássemos mantê-lo, a qualquer custo, para nada mudar, para que tudo permaneça. Pois a outra opção parece ser o mundo desmoronando aos nossos pés. Há alguém que não volta mais, mas que ainda sentimos a presença. Como é possível que há alguns minutos ele estava ali e agora não está mais?


É pesaroso viver as despedidas. Só de pensar em deixar de conviver com alguém que amamos já vem aquele aperto no peito, não é mesmo? Toda a nossa expectativa vai em direção contrária a esses momentos. Ainda que a gente saiba que a morte é parte da vida, é muito difícil encará-la. Refletirei aqui sobre alguns aspectos que podem ajudar você a entender o porquê é tão custoso se despedir de uma pessoa que amamos e pensar em algumas ideias para contribuir com o seu processo de luto. Para isso passaremos pelos seguintes pontos:

  • - O conceito de morte no Ocidente

  • - Como fazer para lidar com o luto


O conceito de morte no Ocidente


Bem, toda a nossa dificuldade em lidar com a morte tem um fundamento. A morte é um conceito que fugimos para não dar um significado! O que isso quer dizer? Quer dizer que sabemos da existência dela, mas vivemos como se ela não existisse. Porque experienciar as perdas nos provoca muita dor! Se formos pensar na história da humanidade ocidental, como foi explicado por Philippe Ariès, tivemos diferentes formas de lidar com a presença da morte. Inclusive, houve um tempo em que ela acontecia tão corriqueiramente que nem havia tanto impacto assim.


E quando foi que ela ficou insuportável? Quando nos demos conta de que as pessoas são únicas e que podemos perder a sua individualidade quando ela morrer. Esse sofrimento por perder alguém, além de nos aproximar da dor dessa perda, nos fez conscientizar de que em algum momento nós também vamos morrer. Nossa! Perceber a existência da nossa própria morte foi muito assustador. Então os recursos que fomos desenvolvendo para lidar com as perdas foram no sentido de adiar ao máximo se conectar com esse momento! De tão longe que deixamos, acabamos acreditando que ele não aconteceria. E em vez de entender a morte como parte da vida, a percebemos como algo que a interrompe e abrevia.

Bem, e, porque estou falando tudo isso? Para ajudar a você refletir sobre como é a sua compreensão sobre a morte? Você vive como se ela não existisse? Qual o valor do seu tempo? Você consegue ter momentos de qualidade com quem você ama? O quão distante você sente que está dessa realidade? Como foram as suas despedidas? Quando não temos consciência da nossa aproximação dos fins eles podem passar “despercebidos” e não haver espaço para elaborá-los.


Foi assim que não desenvolvemos recursos para aprender a lidar com a morte, ou para lidar com a dor das perdas. Acabamos por escolher ignorá-las. Bem, esse é um caminho, mas que acaba nos levando a despedidas e lutos mais complicados. Isso quer dizer também que temos outro caminho. Se te interessou conhecer, continue a leitura pois refletiremos sobre algumas dicas que possam contribuir no seu processo.




Como fazer para lidar com o luto


Não é à toa que nossa primeira reação à morte é pensar que não aconteceu. A dor do luto é intensa e nesse momento inicial é como se entrássemos e saíssemos dela. Há momentos em que vem a sensação de que nada mudou e outros de que não reconhecemos mais o mundo que vivemos. É complexo registrar inclusive cognitivamente as informações que recebemos pelo impacto do momento. Por isso, é muito importante passar por rituais de despedida. Como por exemplo: os rituais de velório, sepultamento, falar sobre o ente querido no passado e sobre a perda, escrever uma carta para a pessoa que morreu. Essas são algumas possibilidades, mas você pode encontrar outra que combine com seu jeito. Esses rituais são recursos importantes para ajudar a entender e concretizar essa realidade. E lembre-se é natural essa oscilação entre a sensação de que nada aconteceu e sofrimento, raiva e vazio.

Ao passar do tempo vamos compreendendo a morte e reconhecendo a falta. Ao perceber a ausência da pessoa querida temos a vontade de estar próximos novamente. E como nosso cérebro ainda não se acostumou com essa ausência, por meio dos nossos sentidos, pode nos pregar sensações da pessoa como se ela ainda estivesse ali. Um cheiro, uma música, um casaco no sofá, podem nos remeter a uma sensação momentânea de que a pessoa está ali! Por alguns instantes o peso diminui pela sensação de presença! Mas logo percebemos a falta. Então veja bem, é quase como se precisássemos fazer um exercício para lembrar que aquela pessoa não está mais aqui.

Bom, quando nos damos conta da perda concreta experienciamos diversos sentimentos. Dentre eles é muito comum a raiva e a culpa. Esses são sentimentos naturais do ser humano. Não gostamos de perder! Passar por isso desperta uma sensação de injustiça, de raiva por ter que parar de ver alguém que a gente ama! Às vezes temos raiva da própria pessoa que morreu! Como assim ela “vai e não volta mais”?! São sentimentos fortes e muito doloridos! Quando amamos temos medo de perder e fazemos de tudo para que isso não aconteça. Quando acontece tentamos encontrar alguma explicação, projetar todos esses sentimentos duros em algo ou alguém, buscamos encontrar um sentido para toda essa dor. Ainda que na sua maioria das vezes não há reais culpados, nosso pensamento fantasioso cria contextos de uma forma que acreditamos serem muito verdadeiros e não temos dúvida deles. Acolha esses sentimentos, dê espaço para a expressão deles. Lembre-se também que possivelmente há partes dessa história que você não deu conta de registrar. Como vimos, com o impacto da notícia absorvemos pouca informação. E tenha em vista que tudo bem sentir raiva, mesmo se for em relação à pessoa que morreu, ela não anula todo o seu vínculo e amor que você tinha por ela.


Levamos um tempo para compreender cognitivamente que a perda é irreversível e geralmente quando esse momento acontece vem acompanhado de muita tristeza. É um momento de grande conexão com sentimentos difíceis, como a sensação de desmotivação pela vida, ou o desejo pelo isolamento social. É um momento de vivenciar o pesar e é importante dar espaço para a expressão desses sentimentos.


Até aqui passamos por etapas com diversos sentimentos e processos que contribuem para a chegada de um novo momento. Os sentimentos de tristeza vão se mesclando com outros mais positivos. É possível começar a aceitar a perda e construir novas possibilidades, ter energia para novas relações. Lentamente tudo aquilo que era associado à pessoa que morreu vai tomando novas formas, agregando novas histórias sem a sua presença. Vamos dando um novo formato à dinâmica de vida sem a relação física com a pessoa que faleceu. É nesse momento que fica mais confortável doar os pertences. Porque percebemos que toda a história que tivemos com ela fica guardada nas nossas memórias.


De uma maneira geral e resumida podemos dizer então que temos duas grandes tarefas importantes e acontecem juntas:

  • - Uma relacionada a se despedir – olhar para o passado, sentir e sofrer pela falta da pessoa querida e ir elaborando a sua perda.

  • - E a outra de seguir em frente e continuar vivendo – aprendendo uma nova maneira de continuar a vida. Permitir-se reconstruir sua vida sem a presença física dessa pessoa, sabendo que tudo que foi vivido continuará com você, mas em um novo formato.

Bem, definitivamente esse não é um momento fácil. Espero que de alguma forma esse conteúdo possa contribuir com as suas despedidas. O luto é um processo natural da vida, mas se você estiver passando por um momento como esse e quiser um suporte psicológico, clique aqui e converse com uma de nossas psicólogas para conhecer mais sobre esse serviço.



Ana Luísa Remor


Psicóloga


CRP 12/11646


(48) 99642-9889

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