Ansiedade na infância: devo me preocupar?

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o Brasil tem a maior taxa de pessoas com ansiedade no mundo. Mais de 23% dos brasileiros sofrem de algum transtorno de ansiedade. Certamente você conhece alguém que apresenta algum transtorno de ansiedade ou você mesmo é essa pessoa. Mas não são somente os adultos que estão sofrendo com a ansiedade em excesso, as crianças têm se sentido cada vez mais ansiosas. Devemos nos preocupar? E o que fazer para ajudá-las?


Até pouco tempo, havia a crença de que os medos e as preocupações durante a infância eram transitórios e benignos. Hoje, reconhecemos que podem causar sofrimento e prejudicar inúmeras atividades relacionadas à vida da criança. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) não separa mais a ansiedade em faixas etárias (de crianças e adultos), isso significa que os transtornos presentes em crianças e adolescentes não são mais vistos como menos graves.


Além disso, em uma pesquisa realizada com crianças com ansiedade, acompanhadas em uma clínica especializada em transtornos de ansiedade, foi identificado que mesmo realizando acompanhamento por quatro anos, em torno de 25% desenvolvem algum transtorno na idade adulta. Outra pesquisa revela que aproximadamente 10% de todas as crianças e adolescentes têm ou irão ter algum tipo de ansiedade. Considerando as consequências para a vida adulta e todas as implicações no processo de desenvolvimento global, todas as pesquisas sobre o tema apontam para a urgência da intervenção precoce através de cuidados de saúde mental.


Vamos explorar melhor este assunto e o que podemos fazer. Para isso vamos passar pelos seguintes pontos:


- A ansiedade pode ser saudável na infância;

- Quais os sinais de alerta que indicam quando a ansiedade pode ser prejudicial na infância?

- O que fazer para ajudar as crianças e adolescentes?


Tratando-se da saúde mental dos nossos filhos, sei que o assunto pode ser desconfortável, mas estarei com você até o final do texto trazendo momentos de respiro nesse processo de compreensão e saídas para lidar com as adversidades, ok? Vamos comigo?


A ansiedade pode ser saudável na infância


Bom, você pode estar pensando: mas ansiedade não é um sentimento importante como todos os outros? Isso mesmo, a ansiedade é uma reação natural do nosso corpo, que prepara nosso organismo, otimizando suas funções para nos proteger de situações de perigo. O conjunto de reações que a ansiedade desencadeia é conhecido como ataque ou fuga e graças a essas reações em cadeia é que nossa espécie sobreviveu aos desafios das transformações do mundo ao longo de milhares de anos.


Acontece que, nem sempre estamos diante de situações de perigo reais, e as reações de ansiedade podem alterar a funcionalidade do dia a dia ou fazer com que deixemos de viver algo da nossa experiência. Nesses casos, pode ser um sinal de que as reações ansiosas estejam desproporcionais aos acontecimentos. Assim, a ansiedade se torna prejudicial.


(Se quiser entender melhor sobre como funciona uma crise de ansiedade, acesse o texto: “Como identificar uma crise de ansiedade?”)


Outro aspecto natural da ansiedade está nas suas fases de desenvolvimento. Durante nosso processo de crescimento passamos por momentos que geram ansiedade, por exemplo, por volta dos 6 a 7 anos de idade, quando a criança começa a perceber que o mundo é maior do que ela mesma e precisa admitir que nem tudo gira ao seu redor, chamamos essa fase de saída do egocentrismo.


Temos ainda a entrada na adolescência, aquele turbilhão de emoções oscilantes causam muita ansiedade. Esses são apenas dois exemplos bem marcantes em que a ansiedade aparece naturalmente no desenvolvimento.



Mas, atenção! Essa ansiedade saudável existe em prol do desenvolvimento. É importante reconhecer a intensidade e a dimensão do quanto esse sentimento está afetando a funcionalidade da vida da criança como um todo. Para avaliar isso, vamos entender quando a ansiedade se torna prejudicial.


Quais os sinais de alerta que indicam quando a ansiedade pode ser prejudicial na infância?


Sempre quando vamos compreender o mundo das crianças precisamos lembrar que elas estão em crescimento, portanto, seus pensamentos, seus jeitos de sentir e de se expressar são diferentes do jeito dos adultos. E precisamos considerar que, por estarem em desenvolvimento emocional, podem não reconhecer e expressar seus sentimentos de uma forma organizada e compreensível, que nos faça entender que a ansiedade de fato está sendo prejudicial. Por isso, vale prestarmos atenção em alguns sinais de alerta:

  • - Desmotivação;

  • - Medos e preocupações excessivas;

  • - Oscilação de humor;

  • - Irritabilidade e agitação psicomotora;

  • - Sentimento de culpa frequente;

  • - Baixa autoestima ou autoconfiança;

  • - Queda no rendimento escolar: a ansiedade diminui a atenção, o uso da memória fica prejudicado o que pode afetar os processos de aprendizagem e desenvolvimento global;

  • - Dificuldades no sono: dificuldade de dormir sozinha ou insônia;

  • - Alterações no apetite: tanto para mais, quanto para menos;

  • - Sintomas físicos como dores de cabeça e tonturas;

  • - Dificuldade de viver o presente, preocupando-se com o futuro;

  • - Perfeccionismo;

  • - Preocupação extrema com a opinião dos outros.

(Especificamente sobre medos excessivos você pode ler mais no texto: “5 atitudes para ajudar seu filho a superar o medo”.)


Além desses sinais de alerta, têm outros 5 pontos importantes a serem observados:


1. Crianças com ansiedade tendem a interpretar as situações como mais ameaçadoras do que realmente são, podem focar em emoções negativas que pessoas ao seu redor expressem, considerar ambientes ameaçadores e desenvolver propensão a pensamentos negativos inclusive sobre si mesmos e sobre suas capacidades, influenciando diretamente as situações sociais.

2. A ansiedade afeta o brincar. Crianças ansiosas pouco conseguem relaxar em algo, inibindo a criatividade e a expressão de sentimentos. Pode acontecer de ela ter algumas brincadeiras específicas que ajudem a ter foco e diminuir a tensão. Neste perfil as brincadeiras geralmente são repetitivas e pouco imaginativas, como jogos virtuais, por exemplo. Assim, a qualidade da expressão dos seus sentimentos e a diversão durante as brincadeiras podem ser afetadas.

3. O contexto em que estamos vivendo. Vivemos uma vida acelerada, com processos rápidos, como o acesso a tudo na palma das nossas mãos com um clique através dos smartphones. É um contexto ideal para dificultar a aceitação de processos, a paciência para esperar e lidar com frustrações. As crianças podem ter acesso a tudo que existe no mundo, inclusive a coisas que ainda não estão prontas para compreender e lidar, o que causa inseguranças e preocupações com questões que ainda não estão ao alcance das suas condições de compreensão.

4. A ideia de que seu filho tem perfil introvertido e tímido. De fato, cada pessoa tem suas características e, sim, existem pessoas introvertidas, mas é importante observar o que essa introspecção quer dizer. Principalmente quando a introspecção está acompanhada de timidez, processos ansiosos podem estar envolvidos. Pois é, talvez a ansiedade seja a causa desta introspecção e esteja trazendo sofrimento emocional para a criança.

5. Psicossomatização. Citei alguns sintomas físicos anteriormente, mas é importante ressaltar que, muitas vezes, a criança reclama de dor de estômago, enjôo, muito apetite ou pouco apetite, dor de cabeça, dificuldade para dormir e, caso não seja identificada nenhuma outra associação com alguma questão médica, leve em consideração que pode ser um indicativo de uma sobrecarga por ansiedade!

Ufa! São muitos os sinais, não é?! Mas não esqueça que eles sozinhos não dizem muita coisa. É fundamental compreender a criança como um todo, por isso, se precisar de ajuda para identificar e reconhecer o que está acontecendo com a sua criança, busque uma ajuda profissional!


Agora vamos ver o que podemos fazer para ajudar quando reconhecemos esses processos.


O que fazer para ajudar as crianças e adolescentes?


Já que a ansiedade tem grandes chances de ser uma realidade hoje em dia, vale pensarmos em como ajudar nossas crianças a viverem de forma que minimize sentimentos excessivos e prejudiciais, não é mesmo? Trouxe alguns pontos de reflexão que podem ajudar neste processo:


- Ensinar a esperar: neste mundo imediatista, saber esperar é um desafio a ser ensinado pelas relações, já que no mundo virtual tudo é conseguido de forma muito mais rápida.


- Ajudar a criança a perceber e acompanhar processos: sejam os seus, os das pessoas, da família, da escola e da vida. Isso faz a criança perceber que muitas vezes a “ameaça” que está sentindo, na verdade, é apenas uma angústia por não reconhecer que tudo tem seu tempo e processo para acontecer.


- Ajudá-la com certa previsibilidade: até os 7 anos a criança não tem a noção de tempo totalmente adquirida, por isso ela pode sentir-se desorientada e pode precisar de ajuda para concretizar os acontecimentos futuros usando alguns materiais como calendários visuais.


- Ajudar a lidar com frustrações: todos nós precisamos aprender a lidar com o fato da vida não ser o que esperamos o tempo todo. Ela nos provoca sentimentos reais e, muitas vezes, desagradáveis como raiva e tristeza…. E podemos aprender a lidar com eles sem medo.


- Vigiar acessos na internet: é importante acompanhar o que a criança tem assistido na internet, principalmente quando se trata de assuntos que a criança ainda não dá conta cognitivamente de compreender e, portanto, de processar emocionalmente. Os conteúdos precisam ser adequados para sua idade. Lembrem-se que sua cognição está em desenvolvimento.


- Muitas vezes nem percebemos, mas acabamos deixando a criança participar da resolução de problemas que não estão em suas mãos, alguns assuntos são para adultos e somente eles poderão resolver.


- Cobranças extremas e comparações com o outro: a exigência de perfeição aumenta o grau de exigência de si mesma, um dos maiores causadores de ansiedade. E nem percebemos que contribuímos para isso fazendo comparações para ajudar a criança a entender o que queremos dizer, quando na verdade só causa mais tensão sobre si mesma.


- A importância dos limites: quando a criança não tem limites a sensação de falta de segurança a deixa responsável demais, por isso, é importante a segurança dos limites. Além disso, reconhecer a sua rede de apoio: qual adulto de referência apresentará os limites e para quem ela pode pedir ajuda em cada ambiente.


- Atividade física: crianças estão em desenvolvimento psicomotor, é muito importante que seu corpo esteja em movimento, liberando energia e experimentando tudo que está desenvolvendo em si mesma.


Estas são apenas algumas sugestões de como ajudar a sua criança a diminuir processos de ansiedade. Brincar e trazê-la para viver o presente e seus sentimentos na hora que são experimentados ajuda a lidar com seu processo de desenvolvimento emocional de forma mais saudável.


Mas não se cobre, ok? Nem sempre conseguimos colocar em prática esses pontos, eles podem ser mais complexos do que imaginamos. Ainda mais quando percebemos que nós mesmos lidamos com a presença da ansiedade extrema em nossas vidas. Nesses casos, as crianças sentem o clima de ansiedade no dia a dia e o processo de mudança fica mais complicado. Então, não se sinta sozinha ou sozinho, existem profissionais especialistas em desenvolvimento infantil para te ajudar nesse processo.


É importante lembrar que a ansiedade pode estar presente em diversos outros contextos como transtornos do desenvolvimento, espectro do autismo, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, trazendo ainda mais dificuldade de gerenciar.


Saiba que a consulta de orientação a pais ou atendimento psicológico infantil pode ajudar vocês nesse processo.


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Doralina Marcon

Psicóloga

CRP 12/10882

(48) 99642-9889

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