Em que momento da crise estamos e como superá-la?

Já estamos há algumas semana em quarentena na maior parte das cidades do Brasil e do mundo. Demoramos algum tempo para reconhecer que nossa realidade mudou de forma permanente em muitos aspectos. Depois que reconhecemos, observamos as pessoas se perguntarem: E agora? O que vem depois da quarentena? Como será viver nesse novo contexto?

esvaziamento

É inevitável criar a expectativa de encontrar uma realidade como a anterior. É assim que a nossa cognição funciona, ela sempre busca algo conhecido como referência. A questão é que, a partir de agora, com o retorno gradual a algumas atividades, provavelmente vamos encontrar um cenário de esvaziamento sem precedentes. Isto quer dizer que passaremos por uma segunda fase de adaptação.

Entraremos em uma fase de ausência e vazio


Isto mesmo, chegou a hora de nos encontrarmos com o vazio decorrente da ausência do que existia antes. É muito provável que as estruturas físicas dos nossos locais de trabalho e estudos estejam como antes, mas o cenário estará diferente. Encontraremos menos pessoas e menos movimentos. Por outro lado, a área da saúde estará sobrecarregada e a economia em maus lençóis. Uma complexidade para a qual, mundialmente, ainda não encontramos saídas a não ser quarentenas intermitentes.


Deixe-nos apresentar de uma forma objetiva: até aqui temos conhecimento do que está acontecendo no mundo, são pensamentos ideias, informações. Esgotamos todos os recursos do campo da cognição. A partir de agora teremos um impacto das sensações e sentimentos, vamos sentir na pele o impacto que a mudança provoca. Somente ao abrirem as portas do comércio ou dos serviços é que sentiremos a falta do já tivemos um dia.


Você pode estar se perguntando, mas, e todas as sensações que vivemos na quarentena? Elas não foram apenas ideias! Nós diremos que você tem toda razão. A questão é que estes sentimentos eram prioritariamente provenientes de ficar confinados e do medo da contaminação. Estes sentimentos não vão embora por completo e agora serão acrescidos do impacto de sentir a ausência a cada procura das pequenas coisas que tínhamos antes.


vazio










Vamos perceber que, provavelmente, muitos dos nossos hábitos diários nem sequer fazem mais sentido, precisam de mudanças para adaptarem-se à realidade.
















Sim, é um impacto doloroso, incomodativo, mas que se for vivenciado, e não adiado, dará espaço para uma próxima fase desse processo: a reorganização da vida de uma maneira diferente. Viver este processo não é nada fácil, temos consciência disso. Afinal estávamos habituados a deixar as emoções em segundo plano porque tínhamos inúmeras tarefas a cumprir. Mas desta vez, as emoções serão imperativas.


Do pesar à reorganização


Estamos entrando em uma nova fase do processo de adaptação que envolve o contato sensorial com a nossa realidade. Para poder seguir adiante e passar por mais esta fase existe uma tarefa principal que precisaremos cumprir: Vivenciar o pesar!


Não se surpreenda se você estiver pensando como pode fazer para não precisar vivenciar o pesar, já que ele traz sentimentos de tristeza e desalento. Mas o pesar não se resolve com ideias ou pensamentos que o afastem. Isso pode adiar a vivência do pesar, mas a única forma de superá-lo é com sua própria vivência.


Se tivermos coragem o suficiente para mergulharmos no reconhecimento da realidade, vamos experimentar o pesar sim, mas também vamos dar espaço para as despedidas do que não existe mais e, enfim, nos abrirmos para as possibilidades de viver algo novo.


Sentir

Sim, como você já deve estar sentindo, esse é um convite de coragem para sentir o seu pesar!


Vamos tentar ajudar você a compreender a importância disso com as contribuições de Coling Murray Parkes, estudioso dos rompimentos dos laços afetivos que embasou o trabalho junto aos enlutados da queda das torres gêmeas em 2001.


Parkes considera que a vivência de um pesar não é o fim, mas uma transição importante, da qual saímos mais fortes e com condições de enfrentar desafios. Esta confiança e força vêm da certeza de que, sim, vale a pena viver, mesmo com o risco de que acabe, pelo fato de que o que vivemos continua vivo em nós, na nossa história e memória e pronto para ser consultado sempre que sentirmos necessidade.


4 fases do processo de superação de uma crise

Observe as fases de adaptação que você vai experimentar nesse momento de mudança da nossa realidade. Você vai reconhecer que pode já ter passado por alguma delas, mas, provavelmente, encontrará predominância de alguma. Então, observe as atitudes que podem ajudar você a superar a fase em que se encontra e ir adiante:


Entorpecimento: um momento de consternação e desorientação cognitiva aguda diante do impacto de uma perda ou um rompimento de um vínculo. Muitos de nós experimentaram esta sensação ao receber aquela mensagem no celular dizendo que estamos em situação de emergência e precisamos ficar em casa. Sim, esta fase abala todo o sistema do organismo. Para passar por ela precisamos aceitar a realidade da perda ou da mudança.


Anseio e procura: Depois do reconhecimento de que, de fato, aquela realidade não existe mais, nosso organismo vai insistir em tentar, em checar se de fato isto realmente está acontecendo. Passam inúmeras alternativas nos pensamentos, que geralmente começam com: "E se….” Bem, quando realmente conferimos que, tangivelmente, a realidade mudou, quando experimentamos o vazio e a ausência, entramos em um verdadeiro sentimento e vivência do pesar, com toda a tristeza que ele envolve.


Desorganização e desespero: Esse é o momento em que o os sentimentos de pesar podem trazer a sensação de que não será possível viver sem o que estamos perdendo. De fato, com o que tínhamos não poderemos mais viver. Não poderemos voltar no tempo nem reverter. Mas enquanto vamos vivendo com esse pesar, vamos nos ajustando a um meio e uma dinâmica de vida do qual o que foi perdido não faz mais parte. Reconhecemos que o que foi perdido habita outro lugar agora, não mais na vida, mas em nós.


Reorganização e restituição: Enfim, a serenidade com sabor de nostalgia se faz presente e nos movimenta para a vida. De um jeito tão íntegro que talvez nunca tenhamos experimentado. Ressignificamos a relação com o que foi perdido e estamos abastecidos de história, confiança e potencial para enfrentarmos a próxima crise que se aproximar.


É claro que essas fases não são estáticas e nem subsequentes de uma forma linear. Elas se misturam, oscilam, avançam e recuam. Mas passar por elas pode nos trazer a vivência de uma profunda sensação de presente por ter uma vida e um potencial adaptativo natural da humanidade para enfrentar desafios.


Desejamos que estas reflexões motivem você a ir adiante no seu processo de adaptação. Mas saiba que se precisar de ajuda, em qualquer uma dessas fases, nossa equipe está à disposição!



Acesse recomendações gerais sobre a Saúde Mental e Atenção Psicossocial na Pandemia COVID-19 na cartilha do Ministério da Saúde com a Fio Cruz.

Maira Flôr

Psicóloga

Destaques
Recentes