O segredo de uma educação que ensina a conviver


São séculos e mais séculos de educação. Em sua maioria, reproduzindo a tradição de passar os conhecimentos adquiridos ao longo da história. Por anos a fio os educadores se perguntaram: O que uma pessoa precisa aprender? Como fazer para elas aprenderem o que precisam aprender? Muitas pedagogias surgiram como respostas para essas perguntas. Mas o tempo passou, a vida humana mudou, as ferramentas de ensino evoluíram e estamos aqui, de volta ao começo.


Uma observação mais atenta do passado nos ajuda a perceber que as descobertas humanas acontecem porque seus criadores não se sentem satisfeitos com as respostas que estão postas na mesa. Eles querem mais!


Foi assim que Isaac Newton (séc. XVII) observou, inúmeras vezes, maçãs caindo do pé, até se dar conta da gravidade e das leis dos movimentos dos corpos. Graças a ele sabemos que não flutuamos porque nossos corpos são atraídos pela terra.


Embora Newton tenha inaugurado um novo paradigma da física, o mais interessante não está na sua descoberta em si, mas na capacidade humana de pensar, refletir, analisar, encontrar novas compreensões, através das evidências.


O mesmo aconteceu com Leonardo Da Vinci (Séc. XV). Engana-se quem atribui a ele apenas as pinturas extraordinárias como Monalisa e a Última Ceia. Da Vinci era um autêntico cientista, examinava corpos humanos para entender as estruturas musculares e os sistemas de funcionamento do organismo humano. Observava o voo dos pássaros em busca da dinâmica e dos materiais capazes de fazer o homem voar. E ainda projetava máquinas que facilitassem a vida humana.


Eles foram fascinantes, não é? Sem dúvidas! O que nos intriga é que passamos séculos estudando as descobertas desses fantásticos cientistas, aplicando suas leis em nosso dia a dia, mas porque não nos ensinaram como “fazer” novas descobertas? Se aprendêssemos COMO eles descobriram e não O QUE eles descobriram, talvez estivéssemos explorando mais as nossas capacidades humanas e cuidando da vida do nosso planeta.


Pois é! Alguns visionários da educação do séc. XIX e XX tentaram nos mostrar que a educação precisava caminhar para a estimulação da potencialidade humana e não para o acúmulo de conhecimentos e técnicas. Carl Rogers foi um deles. Ele dizia: “O homem que se educa é aquele que aprende a aprender”. Suas reflexões parecem mais atuais do que nunca, não pelos conhecimentos que transmitem, mas pelas provocações que proporcionam.


“Por aprendizagem significativa entendo uma aprendizagem que é mais do que uma acumulação de fatos. É uma aprendizagem que provoca uma modificação, quer seja no comportamento do indivíduo, na orientação futura que escolhe ou nas suas atitudes e personalidade. É uma aprendizagem penetrante que não se limita a um aumento de conhecimentos, mas que penetra profundamente, todas as parcelas da sua experiência.” (ROGERS)


Essa compreensão nos leva a perguntar: Qual foi sua última aprendizagem significativa? Difícil responder, não é? Não estamos habituados a observar aquilo que nos provoca modificações profundas.


Vou fazer esse exercício com vocês: minha última aprendizagem significativa foi perceber que existe uma linha invisível que conecta as principais descobertas sobre desenvolvimento humano em todo o mundo na atualidade: parece que as ideias de Mindset (Deweck) e Vulnerabilidade (Brené Brown), são exemplos de que reconhecer quem somos, nossos medos e potencialidades é o principal recurso para encarar os desafios da vida na atualidade. O maior poder do século XXI parece estar nas atitudes humanas que nos conectam uns aos outros e constroem um estado de confiança na nossa capacidade de cuidar uns dos outros e do mundo em que vivemos.


Isso quer dizer que ainda está valendo a evidência de que:


“O ser humano tem a capacidade, latente ou manifesta, de compreender-se a si mesmo e resolver seus problemas de modo suficiente para alcançar a satisfação e eficácia necessárias ao funcionamento adequado” (ROGERS).


“Não posso fazer mais do que tentar viver segundo a minha própria interpretação da presente significação da minha experiência, e tentar dar aos outros a permissão e a liberdade de desenvolverem a sua própria liberdade interior para que possam atingir uma interpretação significativa da sua própria experiência” (ROGERS).


As criações tecnológicas falam da capacidade humana para se desenvolver. Agora precisamos nos contagiar pelas atitudes que promovem o desenvolvimento de relações baseadas na empatia, na compreensão mútua e na congruência. Os fatos nos levam a crer que o maior legado da educação é o respeito à capacidade humana para compreender-se e compreender aos outros, assim como para descobrir e criar novas formas de concretizar a potência da natureza humana. Essas atitudes são capazes de criar um solo fértil para novas aprendizagens, para uma convivência saudável e para o crescimento mútuo.


Vamos adiante nas descobertas das nossas próprias perspectivas de visão do mundo, convivendo com as diferenças que nos tornam únicos e iguais. E se precisar de ajuda para despertar sua liberdade para aprender e conviver, estaremos por aqui!


Maira Flôr

Psicóloga

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