O segredo de conviver com a esquizofrenia


Fazemos parte de um grupo de pessoas que considera o profissional de saúde mental como uma pessoa viva, disposta a ultrapassar as barreiras relacionais e de lutar contra a redução de uma pessoa humana a um conceito psicopatológico.


Se, por um lado, sabemos que algumas vivências mentais são muito difíceis de serem compreendidas, por outro lado, precisamos reconhecer que um diagnóstico, dependendo do que fizermos com ele, pode ser mais um problema do que uma solução para as pessoas com dificuldades mentais. E você? O que acha disso? Já pensou sobre isso?


Não sabemos se você sabe que já se passaram 32 anos do dia em que iniciamos a luta antimanicomial. Essa luta existe para que pessoas com transtornos mentais graves parem de correr o risco de serem excluídas da sociedade e ficarem trancafiadas a sete chaves, para o resto das suas vidas, em manicômios (estabelecimentos criados para encarcerar as pessoas consideradas “loucas”).


E quando a dificuldade mental é diagnosticada como esquizofrenia, os índices aumentam a ponto de ser considerada como um dos principais transtornos mentais humanos. Isso mesmo! Os dados da OMS, em 2018, indicam que existem 23 milhões de pessoas com esquizofrenia no mundo. Desses 23 milhões, 1% tem idade entre 15 e 35 anos e 2 milhões de pessoas são brasileiras.


Nesta altura você deve estar se perguntando: E o que é esquizofrenia?


A palavra esquizofrenia vem do grego “schizo” que significa cindir, dividir e “phren” que significa mente. Isso quer dizer que é um termo utilizado para denominar uma mente cindida, já que a pessoa se comporta como se as funções neurológicas estivessem desconectadas.


Geradora de muita “bagunça mental” e de dificuldade de processar tudo que acontece na realidade, com clareza e objetividade, é quase impossível de agir e sentir de forma saudável. Essas “bagunças mentais” podem ser percebidas através do que chamamos costumeiramente de sintomas, cujo conhecimento nos ajuda a conviver e entender melhor a pessoa com esquizofrenia. Quer saber como?

Existem aquelas características em que a pessoa parece ativa internamente, como se produzisse uma realidade paralela dentro de si mesma, a ponto de transformá-la em uma verdade que nenhum argumento lógico pode quebrar. E se insistirmos podemos ser percebidos como inimigos. Sabe por quê? Porque o raciocínio lógico mais comum é o persecutório. Esse tipo de raciocínio lógico, conhecido como uma forma de delírio, faz com que ela tenha a impressão de que as pessoas estejam armando contra ela.


É possível ainda que a pessoa tenha sensações das mais diversas no mundo dos sentidos, como visuais, audititivas, táteis..., que são atribuídas a causas que na realidade não existem, comumente chamadas de alucinações. Ela pode estar com você, por exemplo, escutando algo que você não esteja escutando, ou ainda vendo algo que você não esteja vendo.


Assim, muitas vezes você pode não entender seus comportamentos agitados ou discursos sem sentido, pois podem estar desconexos da realidade. E nesses casos, as sensações da pessoa com esquizofrenia não tem a ver com você, mas com o que ela está pensando e sentindo.


Ainda existem as características mais difíceis de serem notadas e cuidadas, mas que aparecem antes mesmo de todo esse comportamento ativo. A falta de vontade de realizar qualquer desejo, de cumprir tarefas e compromissos, de estar nas relações ou ainda de cuidar de si mesmo. Esses sintomas são chamados de negativos, já que deixam a pessoa com pouca ação na vida diária e vão tornando sua rotina incapacitante.


Imagine não ter vontade de levantar da cama de manhã, tomar banho, se arrumar, se relacionar com as pessoas, chegar a faltar o emprego para ficar em casa vendo televisão e tomando café.... Esses sintomas podem ser tão paralisantes a ponto de deixar a pessoa em um estado catatônico, ou seja, sem movimento e com rigidez muscular.


Bem, depois de toda esta descrição, imagino que fique um pouco mais fácil de entender como é viver com a sensação de que quase ninguém vai te entender! Donos de uma grande sensibilidade, as pessoas com esquizofrenia sentem quando alguém realmente tem o desejo de se relacionar e interagir com seu jeito de ser, apesar da bagunça.


Mas o que pouco se discute, porque pouco se sabe, é como é estar com uma pessoa com esquizofrenia.


Para conviver é preciso estar disposto a entrar em um mundo completamente desconhecido e sem conexão com uma realidade concreta. Sem precisar concordar ou fazer a pessoa mudar de opinião. A diminuição da pressão externa contribui progressivamente para que a pessoa possa se reorganizar no seu máximo. Estar ao lado da pessoa com esquizofrenia e ter interesse em descobrir como ela faz caminho mental e o que sente, é um grande presente!


Compreender que o que ela sente é um disparo orgânico de uma doença, permite perceber os sintomas que dizem muito sobre como ela sente a vida. Somente por meio da conexão de pessoa para pessoa conseguiremos comunicar e desenvolver uma confiança mútua, mesmo diante de tantas percepções diferentes.


Conhecer, conviver e ter um jeito desorganizado e bagunçado de estar no mundo é difícil para qualquer um. Por isso, se você conhece alguém com esquizofrenia ou tem esse diagnóstico, saiba que pode usar sua potência para diminuir os entraves relacionais através da Psicoterapia.


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Doralina Marcon

Psicóloga

CRP 12/10882 (48) 99642-9889

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