Quando comunicar significa existir


Você já teve a sensação de deixar de dizer para alguém algo que te representa? Se sim, temos a certeza de que você conhece a sensação angustiante de embrulho no estômago e do nó asfixiante na garganta, que anuncia a presença de algo errado. É uma sensação tão desagradável que nos desconectamos das pessoas enquanto tentamos digerir a frustração ou a raiva de não termos apresentado nossas sensações e percepções com clareza.


Pois bem, essas sensações nos mostram que não expressar a nossa compreensão da realidade diminui a nossa qualidade de vida, além de dificultar as relações interpessoais e a construção da identidade pessoal. E tudo isso sem falar das descargas hormonais que estressam e desgastam o funcionamento do nosso corpo. Quanto prejuízo, não acham?


E por que será que em alguns momentos fica tão difícil nos expressarmos? Penso que a melhor resposta para essa pergunta seria: o medo das consequências. Isso mesmo! Temos medo. Medo de que as pessoas se ofendam com o que temos para dizer ou que percebam, no nosso jeito de ser, algo de que não gostem. Temos medo de que as pessoas nos rejeitem ou que não nos valorizem como somos.


É uma experiência tão difícil que esse medo pode embaralhar nossa cognição a ponto de não sabermos mais o que exatamente gostaríamos de comunicar. E quando o que temos para apresentar é algo que pode ser muito doloroso para alguém, como um feedback negativo, uma discordância de pensamentos ou ainda um segredo, descobrimos que também podemos provocar sofrimento no outro.


O problema é que nunca saberemos ao certo qual será a reação das pessoas ao que temos para comunicar. E sabem por quê? Porque não é possível prever como as pessoas traduzirão o que comunicamos. É verdade que nem sempre o produto da tradução é negativo. Não são poucas as vezes em que um feedback pode nos ajudar a transformar as nossas percepções, mas para isso acontecer precisamos deixar de lado os nossos medos e comunicar a nossa forma de sentir e de perceber os acontecimentos.


São tantas as perspectivas e percepções da realidade que comunicar as nossas compreensões sobre nós mesmos, sobre o outro e sobre os acontecimentos pode, por um lado, ser gerador de muitas incompreensões, mas, por outro lado, pode ser uma forma de minimizar os ruídos que distorcem a informação e nos dão a oportunidade de reconfigurar nossas perspectivas.


De tudo isso, o que fica é que, mais importante do que termos a mesma compreensão da realidade, é estarmos sempre dispostos a encontrar uma forma de garantir a coexistência de perspectivas diferentes. Pontos de vista diferentes nem sempre são desiguais, contrários ou opostos, eles podem compor uma realidade mais complexa, que só acontece quando as pessoas estão prontas para viver existindo e deixando o outro existir.


Bem, se isso for verdade, é possível que seja correto dizer que ampliar a nossa condição de expressar as nossas compreensões da realidade e aumentar a nossa capacidade de interagir com o diferente é uma saída para garantirmos a nossa existência no mundo em que vivemos.

Maira Flôr Anita Bacellar

Psicóloga Responsável Técnica

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