Abuso Sexual da Criança: saiba mais (Parte 1)

Nas últimas semanas, a questão do abuso sexual da criança ocupou o espaço, de forma maciça, e por vezes excessiva, nas telas de TVs e nas mídias sociais. Por onde andei, encontrei pessoas comentando sobre as cenas da novela “O Outro Lado do Paraíso”, exibida pela Globo e o imenso desagrado do Conselho Federal e Regionais de Psicologia (CFP e CRPs) com o enredo dessa história de ficção.


Todos sabiam me dizer que os membros dos conselhos de psicologia estavam indignados por terem colocado no roteiro da novela uma advogada, que aprendeu a aplicar as técnicas de Coach e de Hipnose Ericksoniana, para cuidar de uma adulta que apresenta dificuldades no contexto da saúde mental, em decorrência de abuso sexual na infância.


Todos entenderam que eles estavam protestando e denunciando o equívoco de terem colocado uma advogada no lugar de um psicólogo para cuidar de um “caso tão sério como esse”, mas ninguém conseguiu ir além dessa compreensão.


Decidi me inteirar um pouco mais sobre o assunto. E depois de muito refletir percebi que minhas reflexões dariam para produzir alguns textos sobre o tema. Selecionar apenas um ponto, dentre tantos, me fez perceber que a primeira parte de toda a história esclarece o problema. Então, vamos lá!


Não sei se você sabe, mas atualmente é possível identificar dois conceitos de abuso sexual da criança que, infelizmente, não estão dialogando entre si. Se de um lado temos o conceito que subsidia as normas e regras jurídicas e se fundamenta na noção da criança como um sujeito legal, do outro, temos os fatores geradores de dano físico e psicológico pertinente ao campo da saúde e que fundamenta a noção da criança como um ser em desenvolvimento físico e psicológico.


Pois bem! Nesse momento você pode de estar se perguntando: mas esses conceitos não são complementares? E eu responderia: são, sim!


O primeiro entende que “a exploração sexual infantil refere ao envolvimento de crianças e adolescentes em atividades sexuais que não compreendem totalmente, às quais são incapazes de dar um consentimento informado, que violam os tabus sociais dos papéis familiares e que objetivam a gratificação das demandas e desejos sexuais da pessoa que comete o abuso”. O segundo chama a nossa atenção para o fato de que, embora todas as crianças abusadas sexualmente demonstrem dificuldades de compreensão da experiência, nem todas apresentam perturbações no contexto saúde mental.


Visto por esse ângulo, parece que estamos diante de dois lados de uma mesma moeda, que funciona como se fossem independentes um do outro. Isso parece impossível? Mas infelizmente não é.


Vivemos um momento em que a falta de integração entre o ponto de vista legal e psicológico nos leva a ter atitudes que garantam o direito de a criança crescer sem a interferência sexual do adulto para sua própria satisfação, desconsiderando os efeitos que uma revelação ou uma denúncia desse porte pode ocasionar na saúde física, psicológica e mental da criança, da família e dos profissionais envolvidos. E nesses momentos, querendo fazer, não percebemos que causamos um desserviço para a nossa sociedade.


Hoje já sabemos que o abuso sexual da criança é um tema complexo, multifacetado e com fatores de risco mapeáveis. Apesar de ainda termos muito a desvendar sobre essa temática, já é possível planejarmos nossas ações antes de colocá-las em prática ao primeiro sinal de reconhecimento do abuso sexual.

Identificar a idade do início do abuso, a sua duração, o grau de violência ou ameaça de violência, a diferença de idade entre a pessoa que cometeu o abuso e a criança que o sofreu, a proximidade física e emocional da criança com o abusador, a ausência da figura parental protetora e o grau de segredo. Tudo isso pode nos ajudar a compreender o cenário psicológico que torna cada criança abusada uma criança vista individualmente e cada família que sofre as consequências do abuso sexual um grupo, um universo familiar.


Eis uma rede de fatores que demanda um profissional com habilidades e competências que vai além da aprendizagem de técnicas específicas, do conhecimento criminal e de proteção do menor. Implica em ser capaz de identificar os elementos que fazem parte da natureza psicológica do abuso sexual da criança, compreender as diferentes formas de interação e redefinir conceitos como responsabilidade, participação, culpa, poder e acusação, ao ponto de ultrapassarmos os limites das normas e alcançar a singularidade de cada história real de abuso sexual de crianças.


E o enredo da novela? Bem, no fim das contas, ele pode nos levar a refletir sobre as consequências dos nossos atos e ajudar a entender que nem sempre uma boa intenção gera um final feliz.



Referência

FURNISS, Tilman. Abuso sexual da criança: uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.


Anita Bacellar

Responsável Técnica

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