O mundo invisível da obesidade infantil


Semana passada, participei de um programa de TV que teve como proposta debater a obesidade infantil. O convite e o interesse das pessoas por essa temática me fizeram refletir e reviver momentos da infância que gostaria de compartilhar.


Acredito que vocês não saibam que eu fui uma criança obesa. Não saberia falar sobre o meu índice de massa corporal (IMC). Nem sei se esse índice já existia na época. Mas sei bem o que dizer sobre o que se passava dentro de mim. Um mundo completamente invisível a olhos nus, mas plenamente reconhecido por mim mesma.


Como filha única de um casal carioca da classe média, fui criada em um pequeno apartamento do subúrbio do Rio de Janeiro. Sem colegas e áreas externas para brincar, passava as horas livres desenhando ou brincando com as minhas bonecas. Não se gasta muita energia física com esse tipo de atividade, não é mesmo? Pois bem! O pouco gasto de energia física somada a uma alimentação pouco saudável transformou-me em uma criança com uma massa corporal maior do que 15% da média correspondente a minha idade.


O mais grave de tudo isso não foi a realidade que eu vivi há 50 anos, até mesmo porque não me transformei em uma adulta obesa, e sim, o fato de que vivências como a minha foram se alastrando, lenta e silenciosamente, ao longo das décadas até chegarmos aos dias de hoje, com uma prevalência de 124 milhões de crianças e adolescentes com sobrepeso no mundo. E querem saber mais? Entre esses milhões, temos 41 milhões de crianças menores de 5 anos

A realidade é tão assustadora que a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta a obesidade como um dos maiores problemas de saúde pública do mundo. E hoje, frente a todos esses dados, não é mais novidade para ninguém que a obesidade infantil é uma condição em que o excesso de peso corporal prejudica a saúde e o bem-estar biopsicossocial de uma criança e que este estado é fruto de um consumo de calorias alimentares maior do que o necessário para a realização das atividades do dia a dia.


Estamos diante de uma realidade que, nos dias atuais, reflete, por um lado, mudanças no estilo da dieta alimentar em decorrência de um aumento da renda familiar, uma vida corrida somada à facilidade de acesso aos fast food e, por outro lado, alterações nas atividades diárias das crianças e adolescentes, que passaram a substituir as brincadeiras e jogos que demandam gasto de energia física pelo uso dos smartphones, vídeos games e TV.


Não vivi a minha infância na época dos smartphones e vídeos games, mas lembro-me bem o quanto a passividade tomou conta do meu jeito de ser ao ponto de tornar-me uma criança excessivamente infantilizada, com dificuldade para absorver frustração, sem destreza física e social, capaz de revestir minhas relações com os adultos de muito carinho como uma forma de aplacar minhas inseguranças e temores de não ser aceita ou amada pelo outro.


Ainda faz parte das minhas memórias infantis o dia em que um coleguinha me chamou de “Elefantinha da Shell”. Para quem não sabe, esse elefantinho foi a mascote de um posto de gasolina. Vocês gostariam de saber a principal característica psicológica dessa personagem? A simpatia.

Apesar da fala ter me gerado um misto de tristeza, raiva e angústia, ele não estava falando nenhuma mentira. Ele tinha toda razão. Ele tinha tanta razão que nesse mesmo ano participei de um concurso da escola chamado “A rainha das bonecas”, satisfazendo um desejo dos meus pais e eu fui a segunda colocada, além de ter ganhado o prêmio de “miss simpatia” com direito a faixa e tudo.


É! Não é nada fácil para uma criança enfrentar essas verdades, mas culpar o outro também não me parece a melhor saída. Pelo que tudo indica, a solução está em casa. Podemos contar com o fato de que o núcleo familiar é um modelo a ser seguido pelas crianças, no que diz respeito ao estilo de vida e oferecer para os nossos jovenzinhos um jeito de viver que garanta o seu desenvolvimento.


Bem! E se isso for verdade, a saúde dos nossos filhos depende de nós.


Eu decidi viver e aprender a jogar. “Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar” (Elis Regina).


E você? Vem comigo? Você descobrirá que o nome disso é viver.


Anita Bacellar

Responsável Técnica

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