Desigualdades e Privilégios: refletindo sobre o nosso papel...


Há algum tempo venho refletindo sobre algumas dualidades na nossa vida social, como discriminação X inclusão e facilidade X dificuldade. Na semana da consciência negra, sinto que é o momento oportuno para refletir sobre esse tema.


Na oportunidade somos convidados a refletir sobre desigualdades por diversas iniciativas da mídia. Chamaram a minha atenção os jogos de privilégios*, replicados e adaptados em diferentes culturas no mundo, inclusive no Brasil**. Nesses jogos, as pessoas respondem algumas perguntas, a partir das quais os participantes têm mais ou menos vantagens para atingir o objetivo final. Essas perguntas envolvem questões étnicas, raciais, de gênero, de condição socioeconômica e escolaridade, entre outras, que configuram individualidades e experiências de vida únicas e particulares. Assistindo ao vídeo, percebi que havia, por um lado, um pedido de remediação social para tamanha desigualdade, por outro lado, havia um alerta para a dificuldade das pessoas perceberem umas as outras com suas características únicas, reconhecendo o quanto uma experiência não significa o mesmo para todos. Mas uma possibilidade de reconhecer a si mesmo em relação ao outro na experiência, não apenas na teoria.


Inicialmente fiquei confusa respondendo às perguntas, percebi que poderia tanto estar em vantagem quanto em desvantagem. Estudei em escolas públicas e particulares, vivi parte da vida no interior e parte na cidade, tive uma mãe branca e uma negra, tive uma condição financeira desfavorável e em outros momentos muito privilegiada. Em alguns momentos senti vergonha por ter privilégios, em outros momentos me senti entristecida pelas dificuldades pelas quais passei. A maior parte do sentimento era vergonha, principalmente diante daqueles que não tinham privilégio algum. No momento seguinte me perguntei se já usufruí desses privilégios com a intenção de diminuir a importância de alguém. Minha resposta foi não. Foi então que me dei conta de que o sentimento era pesar enquanto membro desse todo.


Observando minhas reflexões diárias, notei o quanto tenho uma característica pessoal que se inclina para buscar a totalidade. Particularmente, sinto dificuldade de olhar para o excluído, sem olhar para o que exclui. Parecem-me ambos pertencentes a uma mesma realidade complexa que não pode ser alcançada com uma análise parcial.


Talvez me perceba desta forma porque encontro em mim esta dualidade. Hoje, mesmo que eu busque isolar algum aspecto, vejo que há algo que emerge tomando conta do todo, minha humanidade e, com ela, a possibilidade de adaptação, superação e a vontade de ir a diante.


A desigualdade social, étnico-racial e de gênero, entre tantas outras dualidades, é um fato que precisamos continuar refletindo para ampliar consciências e acesso aos direitos da vida, mas o que me move nessas reflexões não é apenas o foco social, mas o foco psicológico. Como viver nessa realidade? Como usar o potencial humano pessoal para encontrar meios de adaptação e desenvolvimento? As lutas sociais me parecem importantes para mudar uma questão social que avança nas gerações, mas enquanto seguimos conquistando direitos, há milhões de individualidades que passam e passarão suas vidas em meio a estas condições, privilegiadas ou não.


Enquanto avançamos nos direitos sociais, temos desafios pessoais: romper juízos de valor e julgamentos, não apenas em relação aos outros, mas em relação a nós mesmos. A dualidade mais e menos, não se aplica à humanidade enquanto espécie. Caso desejemos superar as ambiguidades sociais, precisamos reconhecê-las em nós mesmos. Somos todos ambíguos em algum aspecto, temos todos vergonha e orgulho por alguma característica. Mas, além das análises e categorizações, somos seres em desenvolvimento.


Estamos dispostos a reconhecer nossas ambiguidades? Como podemos contribuir para nosso avanço como espécie? Acredito que isso se torna possível na medida em que avançamos , exercitando nossas habilidades, nossa condição de viver nossas experiências e aprender com elas. Acredito que podemos contribuir com o desenvolvimento humano à medida que crescemos como seres humanos. E você?


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Maira Flôr

Psicóloga

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