Invertendo a lógica do vestibular


Diariamente tenho contato com muitos adolescentes e jovens em preparação para o vestibular. Estamos às vésperas das principais provas do país e, com elas, milhares de pessoas prestes a por à prova meses ou anos de preparação para ingressar em um curso superior. Esses jovens fazem parte dos 2 milhões de pessoas que terminam o ensino médio a cada ano no Brasil. São estudantes, familiares e professores ansiosos pelo desempenho e resultado desse processo.


Passaram-se 14 anos desde o meu período de vestibular, mas, ainda assim, nesta época do ano experimento a tensão e as expectativas junto com os jovens e familiares, à espera da tão sonhada vaga em um curso superior. Não há como negar que esse é um fenômeno que direta ou indiretamente afeta a todos. Temos em média 56% da população completando o ensino médio e apenas 14% da população completando o ensino superior. É de fato um grande funil pelo qual muitos desejam passar.


Crescemos com uma compreensão de que ter um curso superior é a melhor ou única chance de alcançar um futuro estável e bem sucedido. Lembro com clareza dos meus pais me incentivando a estudar muito e mostrando a importância da universidade. Eles não tiveram essa oportunidade, então, tinham conhecimento de causa para exemplificar as dificuldades da vida sem essa base. Ainda sinto o quanto significou para eles a conclusão da minha graduação, era como se estivessem se formando comigo.


Hoje percebo a magnitude da pressão que sentia naquele período de vestibular. Embora minha família cuidasse para apenas me incentivar, sem exigir bons resultados, havia em mim uma cobrança constante de bons desempenhos, acompanhada de muitas dúvidas, inseguranças, ansiedade e angústia. O vestibular significava um divisor de águas, mas não sabia ao certo que águas ele dividia. Como saber se o curso que eu estava escolhendo cursar era o que mais combinava com meu jeito de ser? Estava diante de uma escolha com variáveis e proporções que eu não sabia dimensionar.


Aos 16, 17 ou 18 anos, não sabemos ao certo quem somos, quais as nossas habilidades, características, planos de futuro. Também desconhecemos as diferenças entre estudar uma matéria e por em prática os conhecimentos e a realidade do mercado de trabalho. Mas ainda assim temos que escolher uma profissão. E se não gostarmos da escolha que fizermos? Teremos que começar tudo outra vez? Esse é um processo que envolve medo e dificuldades emocionais e, muitas vezes, até dificulta a percepção dos jovens sobre seus potenciais.

Crescemos com um roteiro, até a adolescência sabemos que vamos acordar de segunda a sexta-feira e ir à escola. É um fato garantido por lei em nosso país. Não temos que escolher qual escola frequentar. Os pais costumam falar: “seu único compromisso é estudar!” Até o vestibular há um roteiro construído, mas e depois dele? A intenção é a melhor possível, mas não há preparação para nos conhecermos, reconhecer características, habilidades e limitações. Também não aprendemos ao certo como superar desafios, como criar alternativas diante das dificuldades.


No período do vestibular, sentimos como se, de repente, estivéssemos diante de uma onda gigante sem saber nadar e sem prancha para surfar e, desta vez, ter que achar uma saída, sozinhos. Neste momento me recordo de Piper, um curta de animação da Pixar, que mostra um passarinho aprendendo a pescar mexilhões sem ser engolido pelo mar. Ele encontra uma saída criativa que vale a pena assistir. https://www.youtube.com/watch?v=e7v2zDZBf6g


Nos últimos anos, as gerações de jovens têm estado em contato intenso com um fator que, até então, não fazia parte das nossas vidas, a tecnologia e a internet. O acesso ilimitado ao conhecimento e ao mundo trouxe mais autonomia e criatividade para adolescentes e jovens. Criaram-se profissões novas, que inclusive não estão no leque de opções de cursos superiores. Dentre eles temos as criações de ambientes virtuais, programações, e-commerces. Talvez possamos considerar esse fenômeno como um processo de adaptação da nossa espécie, que inverte o funil, trazendo possibilidades infinitas de práticas profissionais e áreas de estudo não mais vinculadas, necessariamente, a cursos superiores tradicionais.


Hoje olho para o processo de vestibular por outro ângulo. As graduações ensinam os conhecimentos básicos de algumas profissões, que já não garantem um futuro profissional promissor. Além de adquirir conhecimentos, precisamos ajudar nossos jovens a se tornarem curiosos, a reconhecerem e desenvolverem suas habilidades, a criarem alternativas inovadoras para os desafios da vida na era digital.


A maior pressão não está no passar ou não no vestibular, mas no quanto nossos jovens têm condição de gerenciar a própria vida. Precisamos ensiná-los a fazerem escolhas conscientes, que respeitem suas identidades e que permitam usar seu potencial criativo nesse mundo de possibilidades em que vivemos. A realidade nos pede para inverter nossa lógica! Estou disposta a tentar, e você?


Maira Flôr

Psicóloga

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