Quanta vida tem meu tempo?


Esta semana vi meu relógio adiantar-se em uma hora, havia chegado o horário de verão. É uma estratégia criativa para reduzir o consumo de energia, aproveitando a luz solar, entre outras vantagens. Particularmente, me agrada de um jeito especial sentir o dia mais longo, apesar do cansaço que a adaptação exige. Mas o que me despertou reflexão desta vez, foi o quanto as escolhas que fazemos, por vezes, tentam driblar as leis naturais da vida às quais estamos sujeitos há milênios. Até com o tempo temos tentado mexer.


Ocorre-me uma sensação ilusória de que, ao modificar o relógio, estamos no controle do tempo, quando, na verdade, estamos mudando apenas nosso instrumento de medida. O sol continua nascendo e se pondo, as rotações da terra seguem com a mesma velocidade da semana passada e do milênio passado.


Os animais, as plantas e os ciclos da natureza através das estações, tudo o que é vivo está sujeito às ações do tempo, no entanto, não tem consciência disso. Se refletirmos, vamos observar que nossa espécie é a única capaz de perceber o conceito de tempo. Apenas nós, humanos, reconhecemos que o fim do ano se aproxima e que a nossa pele ganha certas marcas que sinalizam o envelhecimento e a proximidade da morte. De fato, o tempo é um conceito humano, mas que rege a sincronia da natureza.


Para interagir com essa consciência do tempo, criamos o relógio. Medir o tempo através dos ponteiros tornou-se uma característica da vida moderna. Substituímos a sensação de fome pelas horas das refeições; a lua alta no céu como referência para a hora de dormir e o despertar com a luz do sol pela programação do despertador. O tempo que era algo relativo às necessidades da vida humana deu lugar a uma contagem de horas, minutos e segundos. Atribuímos valor ao tempo, como se ele fosse um produto que compramos, consumimos e descartamos.


Você já experimentou passar um dia sem olhar para o relógio? Pergunto-me como estamos usando nossa consciência do tempo. Tenho percebido nossas tentativas cada vez mais criativas e ousadas para driblar o tempo. Agilizamos processos, desenvolvemos meios de transporte supersônicos, ampliamos recursos anti-idade e tratamentos para os adoecimentos. Até quando vamos tentar esticar as linhas de limite que a natureza da vida nos impõe, no lugar de viver a vida que temos? Corremos tanto contra o tempo que acabamos por não perceber o sabor da comida que comemos, a conquista de uma aprendizagem nova, o aconchego de um abraço.

Neste final de semana e feriado, escolhi descansar e, de uma forma despretensiosa, me percebi encantada novamente com algumas coisas simples da vida. O descanso das atividades intensas me permitiu contemplar paisagens, cochilar depois do almoço e reconhecer o valor das pessoas que me cercam. Confirmei a descoberta de que correr contra o tempo me desconecta da vida. Experimentei parar de tentar segurar o tempo a todo custo, como se fosse possível. Por outro lado, não tenho mais a ilusão de que viver completamente desacelerada seria uma alternativa. O que me ocorre é que preciso estar atenta às minhas sensações, percepções sobre meu corpo, necessidades para saber a hora de desacelerar e buscar viver algo que dê sentido para o tempo.


Muitos já nos alertaram sobre a forma como lidamos com o tempo. Recordo-me de algumas leituras, músicas e filmes¹, mas em especial, lembro-me dos meus avós dizendo “Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje!”; “Quando se vê a vida já passou!”; por outro lado diziam: “Tudo tem seu tempo minha filha!”; “O tempo cura tudo!”. Aparentemente contraditórias, mas são expressões que representam as duas facetas que o tempo nos apresenta, ele é imprevisível e ininterrupto, mas, por outro lado, a consciência dele realça o sabor e a aprendizagem que cada momento vivido pode trazer.


Há quanto tempo não nos perguntamos: quem sou? Onde estou? Como estou? Quando estou? Estar consciente de si no tempo pode trazer um novo significado para a vida. Realmente acredito que se pararmos de tentar controlar aquilo que não é possível e passarmos a usar nossa capacidade reflexiva para transformar o significado das nossas experiências, podemos encontrar mais realização pessoal.


O que você está fazendo com o seu tempo? Fica o convite para interagir com o tempo sem correr dele. Ainda há tempo. Vamos tentar?




¹ Questão de Tempo: https://youtu.be/MECwYJzEX1M

A incrível história de Aleline: https://youtu.be/3yOqVdIUhbM

Click: https://youtu.be/3-VfwPpbNg4


Maira Flôr Psicóloga

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