Depois de um dia dos pais...


Nesse último domingo, dia dos pais, sem dúvida tive uma experiência peculiar, senti como um estalar de novas compreensões sobre a relação com meu pai. Nos últimos tempos, temos vivenciado momentos que nunca antes havíamos compartilhado, e, neste fim de semana, recebi uma amostra concentrada. Vi meu pai se emocionar, demonstrar todo o seu afeto e carinho, falar além do que as palavras diziam e ouvir além do que as minhas palavras puderam dizer. Algo nele estava diferente, ou será que era em mim? Agora me parece que era em nós.


O dia dos pais já havia passado, mas meu desejo de compartilhar essas reflexões só crescia, então decidi escrever... Reconheci que a função de pai na minha vida havia se transformado e já não era a primeira vez que essa mudança acontecia. Descobri que não temos um único significado de pai ao longo da vida, simplesmente porque a pessoa dele ele muda, assim como nós mesmos mudamos e a cada momento desse fluxo a relação entre pai e filho já não é a mesma.


Contaram-me que, desde os primeiros meses de vida, meu pai foi aquele que deu condições e compartilhou dos cuidados básicos necessários para o meu desenvolvimento e amadurecimento. Geralmente é assim que acontece, até que a criança vai desenvolvendo autonomia e a função de pai vai se transformando de um processo biológico para um significado relacional. Ele cada vez mais pode cuidar, orientar, ensinar e brincar com seu filho. Seu papel é fundamental para que a criança se interesse por experimentar a vida, suas sensações e desafios. Naquela época, meu pai passava longos períodos longe de casa a trabalho, mas os momentos em que estava presente, eram suficientes para me ensinar a comer com as mãos, a beliscar nas panelas e mais algumas manias que tenho ainda hoje.


A criança cresce mais um pouco e é a função de pai fazer despertar a vontade de sair da zona de conforto do colo para explorar as possibilidades da vida. Tornam-se parceiros na promoção da autonomia dos filhos e esta motivação para ir adiante nos acompanha por toda a vida. Por muito tempo pai é sinônimo daquele que nos ajuda a refletir, ponderar, escolher, arriscar e reconhecer quando o passo foi “maior que a perna”, para recuar e começar outra vez. Ainda lembro o meu pai dizendo: “sonha alto minha filha, se você não alcançar tudo, o meio do caminho já é bastante!”

É com eles que aprendemos a batalhar, identificar o novo e nos desafiar a ir adiante. Foi isso que reconheci nesse último domingo, percebi que existe algo do meu pai dentro de mim, já não posso mais diferenciar sua função daquilo que sou. Tornei-me um pouco pai de mim mesma a cada vez que me projeto à frente, e mesmo que a distância física nos impeça de estar juntos em muitos momentos, não tenho dúvidas de que ele estará comigo, porque já não posso mais sentir conforto e satisfação em estar parada diante de um desafio da vida.


Percebi ainda outra aprendizagem, havia mais um ponto de transformação da nossa relação pai e filha. Reconheci que hoje também sou sua parceira, posso contribuir no processo de passagem para a nova fase da sua vida, posso ajudá-lo a desacelerar sua velocidade para saborear as sensações que a vida oferece na velhice. Enfim, somos pessoas compartilhando processos da vida, com a compreensão de nós mesmos e do que conseguimos construir até o momento.


Sinto que se um dia nos perdermos, eu a ele ou ele a mim, este reconhecimento pode transformar nosso pesar. Ele faz parte de mim e eu faço parte dele, e se pudermos continuar nos transformando juntos, será um prazer imenso! Mas se não pudermos, foi uma honra até aqui!

Sinto que esta função também pode ser desempenhada por outras pessoas, não reconheço este processo como um sinônimo da geração biológica ou de um gênero. Definitivamente, tenho outros pais na vida! Mestres da profissão, parceiros de trabalho, grandes amigos. As principais reflexões, fruto deste dia dos pais, são que as relações se transformam, as pessoas também, e pais são aqueles que nos fazem crescer. Quanto mais me sinto aberta para as realidades que se transformam em mim, mais posso construir relações significativas na vida.


Sinto-me aberta para reconhecer os significados das minhas relações e suas transformações. E você?

Maira Flôr Psicóloga

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