Que história é essa?


Certo dia eu estava em uma farmácia fazendo compras e escutei o pedido de socorro de uma voz masculina. Imediatamente, parei o que estava fazendo para tentar entender o que estava acontecendo. Após uma breve troca de olhares preocupados, percebi que todas as pessoas que estavam no local se sentiram tocadas afetivamente pelo pedido.


Conduzidos pelo desejo de compreender o que estava acontecendo, buscamos com o olhar captar mais informações sobre a situação. E, enquanto procurávamos, outra voz masculina ecoou mais forte do que o pedido de socorro, dizendo: seu ladrão safado!


Imediatamente reconheci que estávamos diante de uma contradição. Afinal, em que voz deveríamos acreditar? Como assegurar qual das pessoas estaria exercendo o papel bandido, praticando uma atividade criminosa ou de vilão, descarregando toda a sua maldade no outro.


E para piorar essa história, o que vimos só serviu para dificultar ainda mais a nossa compreensão dos fatos.


Por mais incrível que pareça, a pessoa que pedia socorro estava deitada no chão, berrando descontroladamente, enquanto outro indivíduo, distante alguns centímetros do corpo caído na calçada, esbravejava todos os comportamentos considerados, por ele, como inadequados. Mas então, porque ela estava pedindo socorro? Quem fez mal a quem?


Não é difícil imaginar que o que veio a seguir foi uma série de avaliações parciais, por parte das pessoas que assistiam uma cena da vida real. E eu, enquanto tentava digerir tudo aquilo, testemunhei o surgimento de diversas avaliações, oriundas de interpretações pessoais do comportamento humano e defendidas como verdades absolutas. Em poucos minutos, os participantes passivos se dividiram em dois grupos que passaram a fazer parte ativamente dessa história. O conflito aumentou. As pessoas começaram a se agredir enquanto defendiam as suas opiniões e aquele que estava caído no chão se levantou e saiu, sorrateiramente, sem ninguém perceber.


Infelizmente, o estado de selvageria tem feito parte do nosso dia a dia. Há tempos tenho me chocado com as barbáries sociais que temos nos dado o direito de cometer contra a nossa espécie, em prol de um conceito ou uma ideia. E o pior de tudo isso é que, até nos momentos em que estamos defendendo um pensamento que supostamente estaria a serviço da preservação da humanidade, destruímos algo que faz parte de mim, de você, de todos nós.


Reconheço que não estamos parados. Muito pelo contrário, estamos apresentando as nossas opiniões, estamos fazendo o que achamos certo, lutando por aquilo que acreditamos. Não faltam debates, protestos e discussões. Para mim, isso demonstra um profundo interesse da humanidade em mudar o rumo dessa história. Mas por que não está dando certo? Por que não consigo identificar os sinais da mudança? O que estamos fazendo/dizendo que deveríamos deixar de fazer/dizer? Ou ainda, o que estamos deixando de fazer/dizer que deveríamos estar fazendo/dizendo?

Vejo pessoas ditando novos rumos, ouço pessoas denunciando retrocessos, sinto a presença de sofrimento vindo de todos os lados e atingindo os seres humanos, tanto no momento em que exercemos o papel de opressor, quanto no momento em que exercemos o papel do oprimido. Já não consigo perceber tão claramente e tão bem desenhado, como há tempos atrás, quem é quem. E, por vezes, encontro em uma mesma pessoa, ora atitude de opressor, ora de oprimido.


Tenho a impressão de que não me resta outra saída a não ser aceitar o caos e procurar um novo ponto de partida para as minhas reflexões.


E depois de muito procurar, encontrei no conceito de Direitos Humanos contido na Declaração Universal dos Direitos Humanos o elemento que pode redirecionar a minha e, porque não dizer, as nossas reflexões sobre um jeito mais saudável de nos relacionamos uns com os outros, a saber: o resgate da dignidade humana.


Apesar de não existir obrigação jurídica, a Declaração contribui para não esquecermos que todos os seres humanos nascem livres em igualdade de direitos e dignidades, com capacidade de tornarem-se conscientes de si na experiência ao ponto de serem responsáveis pelas suas atitudes. Essas características, por si só, são bons motivos para que a pessoa humana seja tratada pelos seus iguais com a necessária consideração, independentemente de sua raça, cor, gênero, religião, origem social e condição econômica, entre outras.


A questão é que, apesar da consideração pela condição biológica humana ser uma atitude fundamental para o exercício da dignidade e do valor humano, ela, por si só, não está garantindo a concretização desses princípios.


Além do respeito, parece que é preciso reconhecer o ser humano como alguém que não se limita a ser o que é, porque faz parte da sua natureza biológica a condição de vir a ser. Existe, além disso, um ser motivado para tornar-se uma pessoa autônoma, livre, autêntica e realizada na sua existência.


Se tudo isso for verdade, precisaremos abandonar o caminho das ideias e conceitos que reduzem a compreensão do ser humano à expressão do seu comportamento, para reconstruir o diálogo com a pessoa em desenvolvimento que existe em cada um de nós.


Eu gosto muito dessa ideia. E você?


Anita Bacellar

Psicóloga


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