Minha vida é enlouquecedora, e agora?


Manter nossa a saúde mental nos dias de hoje não é nada fácil. Já são mais de onze horas da noite e estou aqui, dividida entre escrever, dormir, ver um filme, trabalhar em outros afazeres, guardar as roupas lavadas, ler o livro que chegou ou, ainda, fazer as atividades do curso de especialização online. Na próxima hora, se eu não for dominada pelo sono, terei mais um milhão de outras coisas para fazer.


Pois é, nossos dias são assim! E como se não bastasse a quantidade de deveres para fazer diariamente, também temos que dar conta das exigências sociais e das nossas expectativas pessoais: ser um profissional qualificado, um estudante eficiente; uma amiga, filha, mãe e esposa companheira para todas horas; um cidadão que sabe o que está acontecendo no país, no estado e no bairro. E, além de tudo isso, não devemos esquecer de dormir bem, comer alimentos saudáveis e fazer exercícios físicos. Ufa! Cansei só de lembrar!


Às vezes, até parece que vamos “perder a cabeça” com tantos assuntos para resolver! Temos a impressão de que podemos enlouquecer a qualquer momento e que a nossa saúde mental está presa por um fio. Reconhecer a existência dessa possibilidade não é nada fácil! E cada um de nós busca as saídas para conviver com essa realidade. E digo que somos muito criativos, quando a escolha é por não enfrentarmos a verdade dos fatos: vamos desde ficar deitados por horas e horas assistindo as séries disponíveis na Netflix a compulsões por compras, comida ou ainda prazeres físicos e vícios como cigarro, bebidas e jogos.


Se, por um lado, tais atitudes nos deixam com a impressão de que estamos aliviando tensões, por outro lado, somos tomados pela sensação de impotência, por não estarmos fazendo nossa vida acontecer. E assim, além de não conseguirmos transformar o que sentimos, ainda acrescentamos vergonha e culpa a nossa lista de sentimentos desagradáveis. E eles são tantos...


Um dia desses assisti um vídeo da youtuber JoutJout sobre a ansiedade (qualquer coisa que envolva sentimentos me chama a atenção!). Além de rir muito, porque ela representa o que vivemos de forma engraçada, trazendo certa leveza para as inquietações do dia-a-dia, também parei para perceber o quanto as pessoas vivem numa constante ansiedade. Temos tantas expectativas que ficamos ansiosos com muita frequência. Não é comum encontrarmos alguém que está se sentindo tranquilo, bem consigo mesmo e com o que vive. Isso me fez pensar na quantidade de pessoas que sofre com esse nível de ansiedade que vem aumentando cada vez mais.

Quando isso acontece, muitas situações do nosso dia-a-dia passam a ser ansiogênicas, como passear com alguém, ir ao mercado ou esperar a comida no restaurante. Tudo isso sem contar os momentos que nem percebemos serem geradores de inquietações e, mesmo assim, termos picos de ansiedade e sensações como palpitações, dormência, falta de ar, que nos fazem acreditar na possibilidade de estarmos morrendo. Então aparece o conhecido medo criando morada dentro de nós: medo de não conseguir lidar com as situações, de passar mal nos lugares públicos, além do mundo parecer maior do que podemos ser capazes de viver. Assim, extrapolamos o nível de ansiedade e medo ao ponto desses sentimentos serem improdutivos para nosso cotidiano.


E a tristeza, companheira da ansiedade e do medo, se faz presente através do desânimo. Aquele desânimo que diz repetidamente: você não dará conta. Sem perceber, nos fechamos e amamos menos a nós mesmos, nos afastamos das pessoas, temos pesadelos e a sensação que não vamos conseguir gerenciar mais nada em nossa vida. Afundamos na cama, pegamos atestado no trabalho e, quando nos damos conta, nossa vida parou de acontecer.


Mas nem todos os dias são assim! Sabem aqueles dias que nos sentimos tão sobrecarregados com todas as exigências que nosso “pavio fica curto”? São dias em que a irritabilidade nos faz perder a paciência com as pessoas e fica impossível interagir. Estouramos com tanta facilidade que ficamos conhecidos como o “irritadinho da turma” e nossos amigos chegam a nos evitar. A reação das pessoas parece endossar que o mundo está contra nós e que tudo acontece para nos importunar, mas, na verdade, estamos muito irritados com nós mesmos por não conseguimos dar conta do que queríamos. Essa irritação pode vir com tanta intensidade que podemos perder o controle e acabar sendo agressivos com outras pessoas e nos encrencamos ainda mais com tudo o que precisamos viver.


Identificar até que ponto estamos gerenciando nossos sentimentos de forma saudável não é tarefa fácil! Às vezes, reconhecemos os nossos exageros quando dizemos: “sou louca por doces!”, “quase enlouqueci quando você me ligou!”, ou quando identificamos os exageros dos outros quando eles dizem “você está louca de amor!” “Amiga, sua louca!”.


Saímos por aí dizendo e recebendo essas frases e nos divertindo com elas! Mas nem sempre conseguimos usar essas expressões e ficar bem com elas, ficamos zangados quando as pessoas não nos levam a sério e podemos dizer: “mas não me chama de louca quando estou brigando com você, quando coloco minha opinião, quando estamos vivendo algo junto!” Nessa hora nos defendemos do que as pessoas falam e temos medo de alguém dizer que nos acha louco de verdade. Existe uma linha tênue entre lidar com tudo de forma autêntica e espontânea, e estar com a saúde mental prejudicada e, por isso, perdidos.


Existe uma hora em que podemos perceber que estamos apenas sobrevivendo, não nos vemos mais curtindo a vida de verdade. Perdemos a noção do que faz sentido: “será que é coerente viver do jeito que estou?” Nessa bagunça dos dias frenéticos, corremos o risco de sermos engolidos pelo dia a dia, esquecendo que estamos ali para escolher nosso rumo. Somos a peça central da própria vida e esquecemos de olhar para o que essa “peça” está experimentando!


Rever o que acontece ao redor e o que sinto parece fundamental para cuidar da minha saúde mental. Devo localizar quem eu sou, o que reconheço diante das situações e do turbilhão da vida, o que faço e devo fazer para que tudo faça sentido. Afinal, não temos um jeito certo de viver e encarar tudo, mas qual é o seu jeito? O que você sente sobre o que vive? Somos receptores da realidade e a processamos dentro de nós, o que nos faz ter condições de sentir o que desejamos viver. Para isso, precisamos estar atentos a nós e ao que vivemos como participantes ativos da vida.


Mudar o rumo das coisas é possível. Nunca vou esquecer quando, em um dos lugares que trabalhei antes de me formar, precisei parar para pensar o que estava fazendo ali, pois quando o dia estava muito estressante eu ficava uns 15 minutos dentro do banheiro para sair da “muvuca” da sala: telefones, clientes, chefes cobrando tarefas... Precisei localizar de novo meus objetivos e se fazia sentido continuar com aquele mesmo caminho. Foi assim que percebi que estava lá para conseguir me formar e trabalhar no que realmente queria. Foi assim que toda aquela “muvuca” fez sentido de novo. Com aquele trabalho terminei minha formação que tanto amo e hoje não me tranco mais no banheiro! Preciso me localizar dentro de mim o tempo inteiro, e também já escolhi sair de um emprego e dar aula de dança, mas essa é outra história.


O reconhecimento do quanto é importante nos percebermos como pessoas dignas de confiança no que sentimos e queremos viver, traz a percepção de que fazemos parte da realidade em que estamos e podemos usá-la a nosso favor. A flexibilidade para mudanças e a sensação de liberdade dentro da realidade são possíveis de serem desfrutadas. Podemos explorar-nos com a curiosidade de descobrir o que podemos ser dentro do que vivemos. A vida é nossa também, fazemos parte dela, não precisamos nos sentir alienados quando pressionados pela exigência. As pessoas ao nosso redor vivem esse mesmo sentimento, e estamos juntos. Eu, você e todos, temos medo de perder nossa saúde mental, queremos nos sentir bem, viver bem e uma vida que faça sentido. Eu escolho interagir com a realidade, com quem sou e com as pessoas como são. Escolho fazer parte! E você?


Doralina Enge Marcon

Psicóloga

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