Um jeito de ser mãe


Nos últimos tempos tenho pensado muito sobre a arte de “ser” a mãe que podemos ser e não a mãe que a sociedade diz que deveríamos ser. Tenho percebido como é difícil aceitar o nosso jeito de ser mãe e de confiar na possibilidade de sermos a melhor mãe que nossos filhos poderiam ter.


Não foram poucas as vezes que, em diferentes fases da vida, questionei a minha condição de ser uma boa mãe. Por muitas vezes, me perguntei se daria conta de cuidar bem do meu bebê, se teria a capacidade de suprir as suas necessidades infantis, se alcançaria a sabedoria para dialogar com meu adolescente sem perder de vista a responsabilidade de mãe e se saberia compartilhar a vida de igual para igual com um filho adulto.


Na ânsia de encontrar uma resposta para as minhas incertezas, comprei livros, fiz cursos, conversei com pessoas mais experientes sobre o assunto e nada do que me disseram foi suficiente para acalmar as inquietações que sentia. Foi somente depois de muitas tentativas que comecei a considerar a possibilidade de não achar as respostas para as minhas dúvidas nas experiências vividas pelas outras pessoas. Algo me dizia que eu precisaria viver as minhas próprias experiências se eu quisesse encontrar o meu jeito de “ser” mãe.


Foi assim que me enchi de coragem e me liberei para experimentar a vontade de ser mãe e de sentir o desejo de amar uma pessoinha, que ainda nem conhecia, mais do que poderia amar a mim mesma. Sem esmorecer, dei-me a oportunidade de conviver com os meus medos e considerar a possibilidade de não ter condições de proteger os meus filhos das barbáries do mundo.

Não posso negar que esses sentimentos me deixaram assustada, mas não ao ponto de recuar. Quando dei por mim, estava me sentindo pronta para iniciar uma viagem repleta de aventuras, imprevistos e singularidade. Uma verdadeira odisseia, que tem como primeiro episódio a chegada da gravidez.


Muito desejada por algumas mulheres e desprezada por outras, a gestação foi para mim a possibilidade de sentir como é viver um profundo processo de transformação sem ter o menor controle sobre ele. Como é que o meu organismo sabe produzir todas as alterações físicas necessárias para o desenvolvimento do feto, que logo passará a ser um embrião, com o mínimo de interferência da minha parte? Que sensação estranha não ter mais controle do meu sono e da comida que preciso ingerir para diminuir as náuseas. E as alterações de humor!!! Minha nossa, só vivendo para saber.


Ainda me lembro da tristeza que senti quando meu marido chegou em casa e foi brincar com o pássaro antes de falar comigo. Apesar de todo o cuidado que ele teve, não consegui controlar a raiva que tomou conta de mim quando ele, querendo entender o que estava acontecendo me disse: ciúmes do nosso passarinho, minha vida?

E o mais interessante de tudo isso foi que do mesmo jeito que a raiva veio ela foi embora quando, com um sorriso afetuoso estampado no rosto, ele resolveu o problema me dizendo: Vou sair e entrar de novo, para recomeçarmos essa conversa de forma diferente.


Vocês podem estar se perguntando: e o que aconteceu depois? Ele entrou e sem falar nada me aconchegou em seus braços. Naquele momento tive a certeza de que era amada, de que seria uma boa mãe e que daria tudo certo. Afinal, eu só precisava ser a mãe que eu pudesse ser. Nem mais, nem menos.


Como num passe de mágica eu estava pronta para a experiência do segundo episódio dessa odisseia: ser mãe de um bebê.


Como mãe de um bebê que resistiu para nascer, passei pelo o desespero de não saber o que fazer, o cansaço pelas noites mal dormidas e a sensação de estar perdendo a mim mesma. Estava experimentando, pela segunda vez, viver a vida sem controle, sem saber para onde a ela iria me levar. A tristeza mesclada pela irritabilidade e impaciência tomou conta de mim. Por um momento achei que não conseguiria. Até perceber que eu não estava sozinha. O organismo do meu bebê estava comigo, trabalhando arduamente para desenvolver sua características humanas. Iríamos sobreviver!!!


De fato, tudo passa e o meu bebê deu lugar à uma linda criança. Mais uma vez me coloquei a disposição para viver um novo episódio da aventura de ser mãe. Dessa vez, as experiências acumuladas me diziam que eu iria aprender algo mais sobre a falta de controle na vida.

Cheio de graça, meu filho aprendeu a andar, a falar, a brincar, a ler e escrever, a fazer amigos, a brigar com os amigos, a ser gentil com os outros, a ser mal criado, a dizer o que sente e o que pensa. As lembranças da época me levaram para um dia em que depois de uma briga, que nem lembro mais o porquê, vi meu filho, na época com 5 anos, colocando algumas roupas dentro da sua pequena mochila. Ainda zangada perguntei para ele: o que você está fazendo? E ele me respondeu: vou morar com o meu avô.


Imediatamente percebi que ele estava no controle da situação e que eu poderia confiar no amor que sentíamos um pelo outro. Sem pensar, fui para o meu quarto e comecei a arrumar a minha mala. Depois de alguns minutos, em que nos permitimos ficar em completo silêncio, vejo meu filho parado na porta do meu quarto, com a sua mochilinha nas costas tentando entender o que estava acontecendo. O que você está fazendo, ele me perguntou. E eu disse: “minha mala, vou com você”. Sua expressão de surpresa logo se transformou em um sorriso terno e ele pode me dizer, depois de um abraço forte: eu amo você.


Os anos se passaram e a vida está me dando a possibilidade de encarar pela segunda vez a saga da adolescência. E olhem só o que eu descobri: que o fato de já ter ultrapassado a adolescência do meu primeiro filho não me colocaria em uma posição de controle. Eu continuava sem saber o que fazer. O filho era outro, as circunstâncias eram outras, a época era outra e eu era uma outra pessoa. Dessa vez, tive a impressão de que já sabia o que era para fazer. Precisava me reinventar para continuar inventando a vida com o meu filho. E assim estou reaprendendo a estar próxima sem invadir, ser permissiva sem perder a autoridade, respeitar as suas opiniões e posicionamentos sem deixar de estar ao lado dele na descoberta de si, dos outros e do mundo.


Hoje, depois de passar em revista todas essas experiências, posso dizer, sem medo de errar, que me transformei na mãe que posso ser e isso só foi possível porque muitos anos atrás escolhi ser mãe.

Anita Bacellar

Responsável Técnica, Psicóloga e Mãe do Rafael e Allan

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